A frustração por trás do cancelamento de ‘The Get Down’, da Netflix

A frustração por trás do cancelamento de ‘The Get Down’, da Netflix

Autor: 167

Um drama musical, criado por Baz Luhrman, diretor de ‘Moulin Rouge’ e ‘O Grande Gatsby’, que despontou como a grande aposta da Netflix no ano passado. Essa é a ambiciosa ‘The Get Down’, que ficou conhecida como a produção mais cara do canal: estima-se que cada episódio tenha custado em torno de US$ 7,5 milhões, totalizando mais de US$ 120 milhões para uma temporada completa. Com tanto investimento e cuidado de produção, a série chamou atenção de primeira, o que, contudo, não garantiu sua permanência na grade da Netflix, A série com Jaden Smith, Giancarlo Esposito (Breaking Bad) e  Jimmy Smits (Sons of Anarchy) foi cancelada na última quinta-feira. 

‘The Get Down’ conta a história de como uma Nova York dos anos 70, largada e à beira da falência deu origem a um novo movimento musical no Bronx. Com os últimos dias da disco music e o surgimento do hip-hop, o roteiro costura a vida de jovens negros e de minorias que são constantemente marginalizadas com latas de spray, música, dança, política, religião e seu relacionamento com a luxuosa Manhattan, ali no outro lado da cidade. A série é contada pela perspectiva de Ezequiel (Justice Smith), cujos pais morreram de forma trágica. Morador do Bronx, o garoto foi criado pela tia e, quase um precursor do rap, aprendeu a colocar em rimas a história da sua vida.

Ezequiel escreve, em especial, sobre seu amor por Mylene (Herizen Guardiola), que sonha em ser a próxima Donna Summer, mas está presa pelo conservadorismo religioso do pai (Giancarlo Esposito) e submissão da mãe, mesmo que o tio, o Papa Fuerte do ator Jimmy Smits, um líder político local, tente alavancar sua carreira. Quando Ezekiel percebe, com a ajuda de Shaolin Fantastic (Shameik Moore), que seus poemas podem ser aliados da música, sua vida ganha um novo sentido. A partir daí, os dois jovens do Bronx seguem juntos, como MC e DJ, ao lado de seu inseparável  grupo de amigos, os irmãos Kipling: Ra-Ra (Skylan Brooks), Boo Boo (Tremaine Brown Jr.) e Dizzee (Jaden Smith).

‘The Get Down’ nos leva em um passeio por várias estradas.

Se você é amante da música, vai querer assistir. Muito antes de Eminem, Jay-Z e Drake, existiu um momento na história em que ninguém sabia o que era o hip hop: ele não tinha convenções, ritmos nem representantes; ninguém sabia que ele se tornaria a potência que é hoje. A peso da música na série não para por aí. Enquanto aborda o nascimento do gênero, ‘The Get Down’ mostra o sucesso da disco music, nos trazendo, constantemente, artistas como Donna Summer como referência da época.

Quando pensamos que o foco será esse, apenas, nos deparamos com a importância da música gospel para essas minorias locais e logo depois sua transformação com as influências do pop. Vemos também a sutil popularização do punk rock entre os jovens e somos levados pelos movimentos musicais em crescimento, conhecendo a concorrência e presenciando uma belíssima troca de experiências entre os diversos tipos e jeitos de se fazer o hip hop. Com um número assustador de musicais no currículo, Baz Luhrman nos mostra, ainda, como é trabalhar com a indústria do show business e como é difícil e sofrida a produção independente. A trilha musical da série é quase sempre dançante (quase) e usa de mixagens que combinam duas ou mais cenas embaladas por canções diferentes, com a mesma batida e ritmo – como se estivéssemos ouvindo um DJ tocar.

Filmes de arte marciais, HQ’s de super-heróis e figurinos característicos da década  também abrem espaço na história, que retrata a diversidade étnica e sexual sem meias palavras. Temos uma personagem homossexual, que entra em cena em um balada gay onde temos um concurso de vogue – aquele de fazer poses glamurosas, anos antes de Madonna ser a rainha do mesmo. Além disso, ‘The Get Down’ trouxe personagens mestiços e negros bancando seus black powers arrasadores.

A questão da música vem diretamente ligada à história política e dos movimentos sociais naquele Bronx dos anos 70, que enfrentou um dos maiores desastres de planejamento urbano da história – retratado com primor por Luhrman. A série, inclusive, pode não dizer com todas as palavras, mas não consegue ser distanciar da história de qualquer outra periferia. E da poesia que nela corre pelos sons, palavras e trens indo e vindo.

A crítica feita às expressões artísticas da época são contemporâneas e pouco delas mudou no cenário atual: elas continuam sendo constantemente associadas à criminalidade da cidade. Sem perder a intenção, presenciamos um candidato à prefeitura, branco e elitista, querendo convencer um líder local – que não tem nada de bobo – na esperança de ganhar votos. Sua promessa? Reconstruir as ruínas da cidade, que vive seu período mais decadente. Um discurso, como vemos, praticamente atemporal.

Visualmente, não podemos deixar de falar das cores retrôs, com uma pegada vibrante e calorosa que abraçou os personagens em cenários cheios de cartazes, estampas, texturas, globos espelhados e artes em grafite de “baixa qualidade”, granulados propositalmente a fim de parecer uma película antiga.  A câmera ágil e cheia de enquadramentos específicos remetem à outras obras de Luhrmann e dão à serie uma linguagem diferenciada, que lembra videoclipes. O roteiro de ‘Get Down’ passeia por dois planos, o passado e o futuro, nos deixando sempre curiosos sobre o que acontecerá com seus personagens principais lá na frente, com o rapper Nas interpretando o Ezequiel mais velho. ‘The Get Down’ tem sua música tão integrada à narrativa que soa como se fizesse parte dela de forma bem natural; e não pode ser chamada de musical, exatamente, pelo menos não no sentido que temos do gênero.

Nelson George, Grandmaster Flash e Baz Luhrman em evento de lançamento de The Get Down em Londres.

Brigas familiares, busca pelos sonhos, políticos elitistas, conflitos de geração, guerra de gangues, poesia, rap, grafite, disco music, decisões precipitadas, adolescência e vida adulta. Talvez por ter a ambição de falar sobre tudo ao mesmo tempo e tentar nos apresentar à todos os seus núcleos, ‘The Get Down’ possa ter se perdido, mas nada justificaria seu cancelamento abrupto nesse fim de maio. O cancelamento não se deve ao orçamento ou a baixa audiência, embora a Netflix não tenha se pronunciado sobre o assunto. O realizador afirma ter se dedicado integralmente à série por dois anos e que, nesse meio tempo, não pôde se dedicar a mais nada. Em sua página no Facebook, Baz explica que é um diretor de cinema (e não de séries de TV) e que já está envolvido com a pré-produção de seu próximo filme, tendo que se integrar totalmente a esse novo projeto. Ainda assim, nada que justifique o término. 

Luhrmann escreveu uma longa carta para os fãs. Confira a tradução: 

Queridos fãs de The Get Down,

Gostaria de me dirigir a vocês de coração aberto e apenas reconhecer quão agradecido e emocionado não só eu, como todos que deram tanto a essa produção, ficamos por sua paixão e comprometimento pelo próximo capítulo de The Get Down retomar a produção num futuro próximo. Quero explicar a vocês por que é improvável que isso aconteça…

Quando fui convidado para o centro de The Get Down para ajudar em sua realização, tive que recusar meu compromisso com a direção cinematográfica por pelo menos dois anos. Essa exclusividade se tornou, compreensivelmente, um obstáculo para a continuidade da série para Netflix e Sony, que foram tremendos parceiros e apoiadores. Me mata saber que eu não posso me dividir em dois e ficar disponível para ambas produções. Eu me sinto profundamente conectado a todos que trabalharam e colaboraram nessa experiência memorável.

Tudo foi desenvolvido visando ao futuro… Até um show num palco (você imagina? Eu imagino. E versão acústica, alguém? No próximo verão? Pensando alto…) Mas a verdade pura e simples é: eu faço filmes. E a questão quando você trabalha com cinema é: quando você é diretor, não pode haver mais nada em sua vida. Desde que The Get Down parou, eu tenho, na verdade, passado os últimos meses preparando o meu novo trabalho cinematográfico.

O elenco dessa série é único e excepcional. Além dos nossos atores veteranos estelares, eu não sou capaz de dizer quão privilegiado eu me senti por ter encontrado jovens tão talentosos — estando muitos deles estrelando filmes, criando música e seguindo caminhos incríveis em suas carreiras. Nosso elenco, roteiristas, colaboradores musicais, coreógrafos, equipes de câmera, direção e pós-produção, todos sentiram o profundo privilégio de ter sido abraçados pela região do Bronx e por grande parte da comunidade do Hip-Hop. Mas, mais especialmente, pelos pioneiros do Hip-Hop: Grandmaster Flash, Kool Herc, Afrika Bambaataa, Grandmaster Caz, Kurtis Blow, Raheim e todos os b-boys, b-girls, grafiteiros, MC’s e DJ’s que tornaram essa história possível. Assim como todos que mantêm a chama acesa e são luminares, como Nas. Vivemos coisas juntos de que nunca me esquecerei. Todos nós da família The Get Down fomos tocados por essa preciosa missão de contar a pré-história de uma forma de cultura que transformaria não apenas a cidade, mas o mundo.

Sobre o verdadeiro futuro da série, o espírito de The Get Down, e a história que começou a ser contada… ela tem sua vida própria. Que vive hoje e continuará sendo contada em algum lugar, de algum modo, por causa de vocês, fãs e apoiadores.

Agradecido e honrado, e pra citar a linda balada de Mylene: “I’ll see you on the otherside…” (Nos vemos do lado de lá.”) “

Saudações,

Baz

 

‘The Get Down’, para além de tudo, era uma série de representatividade. Mostrava outros ângulos de um problema que ainda não sanamos como sociedade. Fica a sensação de que ela teve seu fim agora – quando pensamos ter mais e mais séries falando por suas minorias com maior força – com a chegada da já falada e de repente famosa, “Dear White People”. É como se tivéssemos que escolher entre a instantânea fama de uma e a linear história da outra e, de repente,  só pudéssemos manter uma. É claro que temos outras séries sobre negros no serviço de streaming, como “Chewing Gum”, mas não podemos ignorar seu baixo investimento e quase anonimato diante das famosas séries do canal.

Coincidência ou não, isso deixa uma certa frustração pairando no ar, já que as duas séries juntas fariam cada vez mais barulho. Toda minoria carrega o fardo de ser comparada com a maioria e, com isso, vemos o quanto ainda temos que não só olhar, mas ver e ouvir o negro contando sua própria história. Com o cancelamento prematuro de ‘The Get Down’, ficamos, então, com sonhos por realizar, histórias a serem completas, decisões a serem tomadas, esqueletos fora do armário, amores ainda nascendo… E nos despedimos com a certeza que “a batida não para, o poeta não para”.

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Ana Terra

Carioca da clara, amante de praia e do sol de 40°. Ana Terra é designer gráfica - de vez em quando modelo, de vez em quando atriz. - e fotógrafa de Instagram. Adora viajar, gosta de música e cultura e assiste a muitos seriados. Descobriu seu lado nerd quando era menina pequena no Rio, época em que jogava RPGs e virou cinéfila de carteira assinada.

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