Stranger Things 2: o melhor e o pior da segunda temporada

Stranger Things 2: o melhor e o pior da segunda temporada

Autor: 169

Stranger Things‘ honrou tanto as produções culturais dos anos 80 que teve uma continuação pior que a antecessora, como quase todos os grandes sucessos daquela década. Mas calma, isso não significa que tenha sido uma temporada ruim, apenas que não conseguiu atingir as expectativas geradas pelo público depois de tanta hype.

A começar pelo próprio nome, a série virou ‘Stranger Things 2‘, assim como aconteceu com ‘Exterminador do Futuro 2’, ‘De Volta Para o Futuro 2’, ‘Mad Max 2’, ‘Evil Dead 2’, ‘A Hora do Pesadelo 2’… enfim, antes mesmo de começar já era clara a ideia de sustentar a produção novamente nas referências, mas parece que não foi o suficiente. O que fez da série um sucesso estrondoso continuou presente, foi até aprimorado em certos aspectos, mas os fãs mais exigentes não curtiram assistir a algo e ter a situação que já viram aquilo antes.

Spoiler alert: esta review contém spoilers de ‘Stanger Things’

 

O que não funcionou?

Quase toda a trama principal de ‘Stranger Things‘ se repetiu no segundo ano. Os garotos protagonistas se esforçavam para driblar a vigilância dos adultos enquanto tentavam salvar o mundo de um monstro vindo do Mundo Invertido – a diferença é que, em vez de uma criatura super-poderosa, o risco foi transferido para mini-Demogorgons (ou Demo-dogs), que se multiplicavam para dificultar a vida dos mocinhos.

Já a ameaça de fato tinha uma relação direta com Will Byers, assim como na temporada anterior, mas com o garoto em casa, em vez do Mundo Invertido. Também se repetiu o esforço de atuação de Winona Ryder, que foi exatamente a mesma Joyce dos episódios predecessores – e foi surpreendentemente bom lá atrás, mas pareceu se tornar um local confortável para a atriz, que conseguiu uma redenção inesperada com a personagem, não aparentou quer arriscar novamente e se manteve ali.

Em meio a isso tudo também estava o Hawkins Lab, cutucando o portal entre os dois mundos, mas, dessa vez, sem fazer experiências com crianças inocentes.

Tudo muito igual ao que aconteceu antes. A vantagem é que a série virou uma queridinha do público, um verdadeiro fenômeno pop e o simples reencontro com os queridos personagens já foi suficiente para engolir a falta de originalidade.

Stranger Things kids

 

A pouca criatividade acabou gerando também outros problemas, como a criação de um personagem inicialmente interessante, mas tão subutilizado que deu pena. Estamos falando de Billy, novo na cidade, com atitude rebelde, bad boy clássico e que não acrescentou em NADA para a história. Mas nada mesmo! A participação do novato tentou humanizar a figura de Steve, ao mostrar que este realmente virou um cara mais legal, no entanto, não conseguiu êxito nem nessa tarefa. O público se convenceu dessa transformação apenas quando o ex-encrenqueiro ajudou Dustin já nos últimos episódios.

A irmã, Max, até consegue um papel de destaque e com um pouco mais de profundidade, mas o novo galã teen não convenceu, sendo suportado apenas por um corpo sarado que rende um flerte com a Sra. Wheeler, dois closes na bunda, uma cena no chuveiro e uma ótima trilha sonora. Mais nada.

Stranger Things Billy

 

Já o núcleo protagonizado por Eleven foi fraco – considerando que a atriz Milly Bobby Brown foi indicada ao Emmy e ganhou um SAG Award por esta personagem no primeiro ano. A morosidade no desenvolvimento dos fatos foi demais para qualquer nível de suspensão de descrença.

A menina mal sabia dar bom dia, mas ainda assim conseguiu uma carona para outro estado. Isso mesmo: uma criança de 13 anos conseguiu atravessar de um estado para outro mesmo não tendo qualquer histórico de habilidade social.Isso levou ao comovente encontro com a mãe, mas o fechamento do arco também não foi satisfatório, uma vez que Terry serviu apenas para que Eleven (ou Jane) chegasse até a “irmã”.

Stranger Things Eleven

 

O polêmico episódio 7, aliás, não é um filler, como vários fãs reclamaram. Muitas informações importantes foram acrescentadas à trama, o grande problema é que concentraram tudo em apenas um episódio. Se ele não existisse – nem o prólogo do episódio piloto -, não faria diferença apresentar Eight e sua turma apenas na terceira temporada. Os poderes da indiana Kali são muito interessantes, o que dá uma esperança para o futuro, mas o desenvolvimento foi bem aquém do potencial dessa sub-trama.

Outro aspecto bem ruim é a rivalidade criada entre Eleven e Max. A antipatia inicial seria óbvia, mas não existe nenhum sentido em estender isso para mais uma temporada. A situação entre elas poderia ter sido resolvida facilmente no último episódio, para quebrar o estereótipo das “meninas rivais por causa de ciúmes e que depois se unem em nome da amizade do grupo, e não delas mesmas”.

 

E a parte boa?

Existem vários aspectos que fazem da segunda temporada de ‘ST‘ ainda boa e, pode parecer contraditório, muitos deles vêm da herança da primeira. Os Duffer Brothers seguiram uma linha que qualquer produtor também escolheria: deu tão certo da primeira vez, então por que mudar? Se Dustin foi o personagem mais querido, toma mais tempo de tela. Se Lucas foi o mais chato, toma um pouco mais de participação e uma história mais interessante – e uma irmã maravilhosa. Se ninguém gostou de Jonathan acabar sozinho e Nancy ficar com Steve, por que não acelerar a aproximação dos dois?

Pulando a parte da repetição da fórmula de sucesso, algumas outras características foram interessantes. O relacionamento entre o Xerife Hopper e Eleven foi muito bem construído, com cenas pesadas que mostraram que, sim, o senso de cuidado pode se tornar abuso psicológico, mesmo quando feito “pelo bem” do outro. A adoção, o cuidado, a explosão de fúria, a fuga, o retorno, as desculpas e o perdão formaram uma narrativa paralela à principal que foi um dos pilares da temporada.

Hopper colocou a garota em um patamar que, para ele, só poderia ser preenchido por sua filha. Já Eleven o via como o pai de verdade que nunca teve – Dr. Brenner é chamado de “papai” mas, na verdade, era apenas uma referência masculina e não uma figura paternal. A relação que se construiu entre o Xerife e a jovem reflete uma realidade de milhares de pessoas, de submissão a uma justificada pelas boas intenções da parte mais forte. Não, um bem maior não é desculpa e Hopper, no fim das contas, até admitiu estar errado.

Stranger Things Hopper

 

Entre os garotos protagonistas, foi sutil mas muito interessante o desenvolvimento individual de cada um deles. Dustin, por exemplo, passou a falar muito mais palavrões e a tratar a mãe como se fosse uma colega de escola; Mike alternou momentos de empolgação com uma tristeza enorme, variação essa que é típica da adolescência; e estes são apenas os exemplos mais aparentes. Ainda existe um amadurecimento de Nancy, que se revolta por Barb ter sido “esquecida” antes de uma resolução do caso, e o próprio ponto de virada de Steve ao se ver obrigado a ajudar Dustin.

Steve e Dustin

 

Outro dos destaques ficou com Bob, excelente adição ao elenco no papel do namorado de Joyce. Ele é o retrato do nerdão que deu certo na vida. Sua presença não foi empurrada goela abaixo, ajudou na percepção de passagem do tempo – um ano seria tempo suficiente para a mulher se recuperar de um trauma e engajar um relacionamento – e se tornou muito simpático ao público simplesmente por ser Sean Astin. Ele foi um coadjuvante que entrou na trama, de fato, e teve sua participação notada não apenas por estar lá, mas por ter relevância no desenvolvimento das ações.

O “item” de maior relevância no lado bom de ‘Stranger Things‘, no entanto, foi a atuação de Noah Schnapp, o Will Byers. Desta vez no mundo real, ele trouxe consigo flashbacks, visões e até sintomas físicos do período em que esteve no Mundo Invertido. Os episódios de crise do garoto eram visualmente muito pesados, chegando a dar pena porque ele realmente parecia estar sofrendo com aquilo tudo – mérito do jovem ator, que desta vez apareceu bem mais.

Stranger Things Mike e Will

 

A conclusão é que ‘Stranger Things‘ mantém o rótulo inquestionável de um dos maiores símbolos pop do entretenimento no século XXI, mas precisa se esforçar para manter esse status e não cair no ostracismo. Não houve um fracasso na experiência de assistir a uma boa série, mas podemos dizer tranquilamente que é preciso mais do que referências bacanas e cenários bonitos para se sustentar.

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Filipe Rodrigues

Jornalista, apaixonado por futebol, nerd e leonino. Apesar de acompanhar tudo o que acontece no mundo dos esportes, escolheu o universo das nerdices pra dedicar seu tempo produtivo e criativo. Gosta muito de Superman; entre Vingadores e X-Men fica com os mutantes; adora coisas nostálgicas como Digimon, Power Rangers e Dragon Ball; e seu filme favorito agora é Mad Max: Estrada da Fúria!

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