Review | Game of Thrones e uma aula de como não usar deus ex machina

Review | Game of Thrones e uma aula de como não usar deus ex machina

Autor: 3.407

O penúltimo episódio do sétimo ano de ‘Game of Thrones‘ honrou a tradição de acontecimentos importantíssimos nos penúltimos episódios das temporadas. A esperada batalha Pra Lá da Muralha finalmente aconteceu e confirmou algumas das teorias mais populares entre os fãs, porém, tudo isso apelando para ferramentas narrativas nem um pouco interessantes.

Para contextualizar o público que não está habituado com o linguajar da crítica cinematográfica, um conceito é fundamental para entender o motivo de esse “Beyond the Wall” ter sido um episódio fraco: o deus ex machina. Traduzido literalmente do latim como “Deus saído da máquina”, o deus ex machina é uma solução improvável e inesperada para algum problema apresentado em um filme, série, peça de teatro ou até videogames. São apelações narrativas a elementos que não haviam sido mencionados antes ou que, mesmo que já tenham aparecido, não haviam sido relacionados com aqueles acontecimentos Esse recurso não é muito bem visto, porque reflete certa preguiça na construção de um roteiro sólido, que apresente “pistas” do que pode acontecer em vez de criar uma resolução abrupta.

A origem do termo vem dos teatros de arena na Grécia Antiga, quando as histórias se enrolavam tanto que, em determinado momento, um ator representando um Deus aparecia, suspenso por um tipo de guindaste, e resolvia todas as questões com o seu conhecimento e poder infinitos.

game of thrones team

Game of Thrones‘ inclusive, ficou muito popular por fugir destes padrões de respostas fáceis para questões cabeludas. Qualquer coisa poderia ter salvo Ned Stark na primeira temporada, mas mataram o protagonista sem dó. O Casamento Vermelho teria várias formas de ser evitado, mas o massacre dos Stark aconteceu mesmo assim. Na sétima temporada, no entanto, especialmente no sexto episódio, os roteiristas perderam a mão e o que se viu foi um show de horrores.

 

A sequência de deus ex machina em “Beyond the Wall”

O tal “Esquadrão Suicida” era formado por sete dos personagens principais, mas logo de cara pudemos ver que existiam alguns outros indivíduos – não muitos, apenas uns cinco desconhecidos que hora nenhuma são mencionados. Espectadores menos atentos poderiam nem ter percebido que estavam ali até que eles começaram a morrer um por um, com o simples propósito de evitar danos maiores aos protagonistas. Dentre eles, aliás, o único a se dar mal foi Thoros, escolhido de forma nada surpreendente para que ele não pudesse ressuscitar ninguém.

O primeiro deus ex machina veio quando o grupo topou com um urso zumbi (que ficou visualmente incrível), lutou, colocou fogo nele, brigou no mano a mano, tudo para Jorah aparecer do nada com uma faquinha de vidro de dragão e matá-lo. Por que só Jorah estava com uma arma desse material? Por que ele demorou tanto para tomar uma atitude? Por que Jon Snow não atacou com Garralonga, que é de aço valiriano e tem o mesmo efeito? Solução improvável, inesperada e que não havia sido mencionada em todo o caminho percorrido até ali.

O segundo deus ex machina, na verdade, foi um conjunto de acontecimentos bem preguiçosos. A equipe encontrou, de forma muito conveniente, um grupo de uma dúzia de mortos vagando separados do exército. O embate seria pouco desafiante, porque os números de soldados são equivalentes, mas se tornou ainda mais fácil porque quase todos os inimigos desapareceram quando Jon Snow destruiu o White Walker líder daquele setor. Esse efeito (matar um White Walker destrói também todos os wights que ele transformou) NUNCA havia sido mencionado na série – inclusive, Jon descobriu que aço valiriano matava Caminhantes Brancos na Batalha de Durolar (Hardhome, para quem não ligou o nome traduzido ao original) e NENHUM wight caiu depois que o chefão foi destruído.

Mas calma, porque piora. De todo esse grupo de wights, APENAS UM não foi destruído, o que encaixou perfeitamente nas necessidades de Jon e cia. Captura feita, o morto-vivo gritou alto pra caramba e atraiu toda a horda. A partir daí veio outra sequência de escolhas muito infelizes. A montagem do início do episódio deu a entender que o grupo caminhou um bocado de tempo depois de ter deixado a Muralha, mas a primeira atitude de Jon foi mandar Gendry de volta, correndo, para mandar um corvo para Daenerys pedindo ajuda. Nesse meio tempo, os sobreviventes ficaram encurralados em uma pedra no meio de um lago congelado. Talvez eles não andaram tanto quanto pareceu.

+Leia também: Game of Thrones  | Jogos dos Tronos ou Jogo das Traições?

A passagem de tempo nunca foi algo fácil de acompanhar em ‘Game of Thrones‘, mas sempre foi possível entender o que estava acontecendo. Foi perceptível o salto temporal quando Daenerys estava chegando em Westeros, por exemplo, ou quando Jaime apareceu em Porto Real depois de ter sido atacado pelos dragões na Campina. Depois de raciocinar um pouco, dava para saber que o tempo havia passado até aquilo acontecer. O problema de “Beyond the Wall” é que NÃO HOUVE UMA ELIPSE TEMPORAL desde a volta de Gendry até o recebimento do corvo em Pedra do Dragão e a chegada de Dany para salvar todo mundo. Tudo aquilo teria que acontecer no mesmo dia, senão todos os heróis teriam morrido congelados ou de fome – o próprio Tormund havia dito mais cedo no episódio que o segredo dos Selvagens era se manter sempre em movimento, exatamente para evitar situações como aquela.

Pense bem no que aconteceu: o grupo estava encurralado no meio de um lago congelado, Gendry correu até a Muralha para pedir ajuda, um corvo saiu de lá até Pedra do Dragão, Daenerys foi voando até o Norte. Isso demoraria, no mínimo, alguns dias – tempo que faria dos heróis apenas estátuas de gelo quando ela chegasse.

game of thrones s07 tormund

O terceiro deus ex machina foi esse aí: dragões. Chegaram no momento mais oportuno, salvaram os protagonistas e propiciaram o que todos estavam esperando há anos: a criação de um dragão de gelo. O deus ex machina seguinte veio rápido e, acredite, beneficiou o vilão (porque todo mundo quer participar da farra, né)! Daenerys estava em Drogon, que havia pousado para resgatar os heróis, quando o Rei da Noite pegou sua lança e deixou todo mundo com o coração na mão. Inexplicavelmente ele mirou em Viseryon, o dragão que estava mais longe e no ar, e acertou um lançamento certeiro.

Jon ficou preso na batalha, Drogon teve que decolar na pressa para evitar ser acertado por uma segunda lança – o que também não fez o menor sentido: ele estava perto do chão, era muito maior que o primeiro, mas a mira e a super força do Rei da Noite não funcionaram muito bem. O sétimo deus ex machina apareceu depois que Jon escapou do lago congelado (nem vamos considerar isso como um deus ex machina, apesar de não ser nenhum absurdo se o fizéssemos) e tem grau de parentesco e nome: Tio Benjen. Chegou, salvou, lutou, morreu. Fim melancólico para um dos personagens mais queridos dos fãs.

 

Até o que é bom não está tão bom

Para ser justo, não tem como dizer que David Benioff e D.B. Weiss desaprenderam a escrever roteiros. Nesse mesmo episódio fica claro o potencial que eles têm para inserir aspectos sutis para depois desenvolvê-los. No diálogo entre Tormund e Jon, por exemplo, o Selvagem menciona Mance Rayder e como a política de não ajoelhar custou a vida de muitas pessoas, apesar da boa índole do então Rei Pra Lá da Muralha. Isso foi um suave indicativo de que, mais cedo ou mais tarde, Jon iria se submeter a Daenerys.

O que tem prejudicado o andamento da série é a pressa, que ultrapassou os limites da descrença e já está derrubando a qualidade da produção vertiginosamente.

Até o que sobrou de bom está ficando chato. A briga entre Arya e Sansa arquitetada por Mindinho seria muito interessante se não fosse a previsibilidade de como vai ser resolvida. E adivinha como vai ser? Um deus ex machina chamado Bran Stark. Isso nem é spoiler, porque não tem como saber se vai ser isso mesmo, mas sentando e refletindo sobre o assunto, fica claro que não há alternativa.

+Leia também: As teorias mais malucas sobre Game of Thrones

Comparando as primeiras temporadas à sétima fica bastante óbvia a queda na influência de George R.R. Martin na trama. Hoje, não há qualquer traço de imprevisibilidade, tudo o que acontece é possível de ser percebido com muita antecedência e não há sequer uma reviravolta do porte da Batalha da Água Negra ou do Casamento Vermelho.

Beyond the wall” foi um episódio para confirmar que a HBO tem estado muito atarefada tentando agradar os fãs que passaram bastante tempo teorizando sobre o futuro da série, mas se esqueceu de que ‘Game of Thrones‘ ganhou o status que tem por não cair nos lugares comuns de outras séries de fantasia. A tal guerra dos tronos virou previsível, cheia de sub-tramas desnecessárias que acontecem apenas para servir de muleta para acontecimentos mais relevantes.

O romance de Daenerys e Jon, por exemplo, estava sendo sutilmente sugerido, construindo uma aproximação que fazia sentido apesar de correr o risco de ser apenas mais um “final Disney”. Mas a breguice do diálogo no qual o Rei do Norte chama a moça de Dany atingiu níveis alarmantes na “escala novela mexicana de qualidade”, colocando quase tudo por terra.

O visual da série é lindo, os figurinos são excelentes, as cenas de ação são perfeitamente dirigidas, os atores se superam a cada episódio (destaque para Peter Dinklage), mas não há mais tempo para usar esses aspectos técnicos para justificar um roteiro pouco caprichado.

O sentimento parece ser geral: saudades primeiras temporadas…

Compartilhe nas redes sociais:
Filipe Rodrigues

Jornalista, apaixonado por futebol, nerd e leonino. Apesar de acompanhar tudo o que acontece no mundo dos esportes, escolheu o universo das nerdices pra dedicar seu tempo produtivo e criativo. Gosta muito de Superman; entre Vingadores e X-Men fica com os mutantes; adora coisas nostálgicas como Digimon, Power Rangers e Dragon Ball; e seu filme favorito agora é Mad Max: Estrada da Fúria!

SAIBA MAIS SOBRE

Leia Também

Review | Ritmo acelerado marca toda a temporada de Game of Thrones

Review | Ritmo acelerado marca toda a temporada de Game of Thrones

Especial | Teorias sobre o futuro de Game of Thrones

Especial | Teorias sobre o futuro de Game of Thrones

Game of Thrones | Jogo Dos Tronos ou Jogo Das Traições?

Game of Thrones | Jogo Dos Tronos ou Jogo Das Traições?

Snoop Dogg, ‘Game of Thrones’ e a aula de história que você respeita

Snoop Dogg, ‘Game of Thrones’ e a aula de história que você respeita

Adicione Um Comentário.