Nem drama nem comédia: o autismo e a sensibilidade de ‘Atypical’

Nem drama nem comédia: o autismo e a sensibilidade de ‘Atypical’

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Ficha técnica

Nem drama nem comédia: o autismo e a sensibilidade de ‘Atypical’

Título original: Atypical
Data de lançamento: 11 de agosto de 2017
Direção: Seth Gordon
Gênero: Drama / comédia
Produção: Netflix
Distribuição: Netflix
Duração: 30 min (08 episódios)

Avaliação Uber7

O que você sabe sobre autismo? A desordem é considerada comum pela Organização Mundial da Saúde e cerca de 150 mil crianças são diagnosticadas por ano no Brasil. Ainda assim, para quem não conhece uma pessoa autista, é difícil entender o que de fato é o autismo, já que ele é pouco retratado e abordado em filmes, seriados, programas de TV e na mídia em geral.

Criada por Robia Rashid, ‘Atypical’ é a nova série da Netflix que tem como protagonista um jovem autista, algo já extraordinário. Tudo bem que você pode pensar no Sheldon Cooper, de ‘The Big Bang Theory‘, ou até no Moss de ‘The IT Crowd‘, dois personagens de grande destaque que, aparentemente, estão no espectro autista. Mas Sam não é como Sheldon ou Moss; ele é complexo, ele surpreende a cada episódio e ele, apesar de ter momentos engraçados, não está ali pra te fazer rir da franqueza sem filtros e da maneira literal com a qual ele lida com as coisas (algumas das características do autismo). Apesar de não ser drama, em oito episódios, ‘Atypical’ te mostra as dificuldades pelas quais Sam passa, amplificadas pelo fato de ele ser ainda um adolescente. Você entra nos pensamentos dele, já que todo o seriado é narrado pelo personagem principal, e percebe como é complicado para um autista fazer coisas consideradas simples, como ir a um baile da escola, escolher a própria roupa e namorar. Namoro, inclusive, é o tema da série, que mostra a vontade de Sam de conhecer uma menina, beijar e fazer sexo pela primeira vez.

Keir Gilchrist interpreta Sam de forma brilhante: apenas com o olhar ou com expressões de espanto, curiosidade ou de total perplexidade, Gilchrist te faz entender o que se passa com seu personagem, e melhor, faz você se identificar com ele ainda que você não seja autista, não goste da Antártida e nem de pinguins. Isso é o que prende a atenção de quem assiste o programa. Sam, apesar de tudo, surpreende quando diz ou demonstra, de maneira bem particular, que se preocupa e que gosta das pessoas ao seu redor. Um exemplo disso é quando ele diz à Paige, sua colega de escola, que ela é muito irritante, mas que a ausência dela o faz se sentir bem pior. Esses momentos, por serem inesperados e breves, causam extrema felicidade nas pessoas ao redor de Sam e, consequentemente, nos espectadores também.

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Mas, mesmo que você não consiga se identificar com o protagonista, pode ser que se conecte com os outros personagens. Casey, irmã de Sam, num primeiro momento parece implicar com ele o tempo todo, mas logo dá pra notar o carinho que ela tem pelo irmão e como ela o protege diversas vezes, agindo como uma espécie de segunda mãe, apesar de se sentir sobrecarregada com a responsabilidade de cuidar de Sam na escola. A atriz Bridgette Lundy-Paine está um pouco perdida nos dois primeiros episódios, mas no final do seriado você já ama Casey e a lealdade e o senso de justiça que ela tem. Doug, o pai do garoto, é um pouco ausente e não tem muita expressão no início, mas é um bom personagem porque se mostra uma pessoa preocupada, ainda que assustado e até envergonhado pelo autismo do filho. Em certo momento, Doug se torna mais próximo de Sam do que a mãe superprotetora do menino.

Jennifer Jason Leigh, aliás, está muito bem como Elsa Gardner, mãe do adolescente. Elsa sabe tudo sobre autismo, frequenta grupos de pais que têm filhos autistas, vai a eventos e caminhadas de apoio e conscientização e escolhe com cuidado situações e lugares nos quais o filho possa se sentir mais confortável. Elsa é tão protetora e focada no papel materno que se esquece da própria identidade como mulher. Com a expressão cansada na maioria das cenas, ela desperta raiva e empatia na mesma proporção. A raiva vem não pelo fato de ela trair o marido, mas pelo fato de ser contra a busca por independência do filho. E aí entra a empatia porque dá pra sentir o medo de que as coisas não terminem bem e de que Sam se machuque no final das contas.

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Há também Zahid, amigo e colega de trabalho de Sam, e a terapeuta dele, que o ajudam a ser mais independente. Zahid serve de alívio cômico, apesar de ser um pouco forçado às vezes. A trilha sonora do seriado também é ótima e mistura blues, rock, funk, hip hop e bandas alternativas. Já está toda disponível no Spotify pra quem quiser conferir. Mais uma vez, a Netflix aborda um tema pouco discutido e faz um excelente seriado. Atypical é leve e, ao mesmo tempo, sensível; não trata o autismo como um dramalhão desnecessário nem como uma comédia óbvia. Com certeza, vale a pena assistir a primeira temporada, bem curtinha, e esperar pela segunda.

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Bárbara Oliveira

Bárbara já foi jornalista, professora, tradutora e palhaça (no sentido denotativo e no conotativo também). Ri das coisas mais bobas e adora piada ruim. Sabe de cor as falas dos seus seriados e filmes favoritos, tem medo de boneca e não assiste a filmes de terror de jeito nenhum. Na verdade, até assistiria se oferecessem muito dinheiro. Sonha em ter um pug preto, gordo e bem vesgo. Gosta muito de chá.

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