‘Hot Girls Wanted: Turned On’, uma análise da relação da sociedade com o sexo e o amor

‘Hot Girls Wanted: Turned On’, uma análise da relação da sociedade com o sexo e o amor

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Com tantos aplicativos e sites que facilitam a vida, tudo virou instantâneo, automático e prático, inclusive o amor e o sexo. A internet fornece material pornográfico quase que inesgotável e de graça. Grande parte dos adolescentes aprende sobre sexo assistindo a esse conteúdo. Além disso, Tinder, Bumble, OkCupid, entre outros, permitem que usuários conheçam dezenas de pessoas e marquem encontros em questão de minutos. Relacionamentos podem começar e acabar em dias.

É sobre isso que ‘Hot Girls Wanted: Turned On‘ fala, quase como um tapa na cara da sociedade. A série-documentário de Rashida Jones (‘Parks and Recreation’) surgiu como um spin-off do documentário ‘Hot Girls Wanted‘ – ambas produções estão disponíveis na Netflix. Em seis episódios, vemos histórias de pessoas que procuram parceiros sexuais em aplicativos e que desaparecem assim que as coisas começam a ficar sérias; de machismo em filmes eróticos; de camgirls que se envolvem emocionalmente com os homens que as assistem online; de jovens mulheres que são exploradas por agências e, o mais chocante, a história de uma adolescente russa que, na busca desesperada por curtidas e visualizações, cometeu um crime.

Cada episódio tem, em média, 45 minutos. É tudo muito bem filmado, com imagens bonitas e entrevistados que despertam empatia, carinho, raiva e até ódio em alguns momentos. De acordo com Rashida, nada do que eles falam no documentário foi roteirizado. É por isso que, talvez, o programa te deixe um pouco incomodado. Custa a acreditar em certas afirmações e opiniões emitidas por eles.

Hot girls wanted turned on 1

Já no primeiro episódio, duas diretoras de filmes eróticos falam sobre a dificuldade de produzir material de qualidade para mulheres. De acordo com Erika Lust, uma das entrevistadas, o gênero feminino ainda é retratado como coadjuvante. De certa forma, isso reforça o pensamento de que o sexo deve ser prazeroso apenas para os homens. A crítica é tecida de uma maneira leve, mas, mesmo assim, te faz pensar no machismo enraizado no senso comum.

A segunda história, com uma temática um pouco diferente, mostra a vida amorosa de James Rhine, um ex-participante de reality show americano. O que torna as relações dele um tema interessante para o documentário é a forma como ele lida com as mulheres que ele conhece pelo Tinder. O padrão de Rhine é sair com mulheres que ele julga interessantes pela aparência física e, depois de alguns encontros, sumir. Apesar de se considerar um homem de muito sucesso por suas conquistas amorosas, é possível perceber que Rhine se sente vazio.

O terceiro e o quarto episódios falam sobre a exploração de atrizes e atores pornográficos e problemas como abuso emocional e de drogas. O quinto episódio, intitulado “Take me Private“, fala sobre a paixão platônica entre uma camgirl e um homem que paga para vê-la se exibindo todos os dias. Seria romântico se não fosse a realidade.

O último episódio é o mais dramático por se tratar de um crime. Marina Lonina, uma adolescente, filmou pelo Periscope o estupro de uma colega de escola. O motivo? O número de curtidas que ela recebia em tempo real. De acordo com a defesa de Marina, ela não sabia que se tratava de um estupro e, depois, ficou distraída com a quantidade de visualizações que o vídeo estava recebendo.

hot girls wanted turned on 2

Apesar de mostrar situações bem diferentes, Hot Girls mexe com você e te deixa um pouco pensativo, até porque sexo, amor e procura por aceitação são coisas universais. Quem nunca foi ignorado ou deu “um perdido” em alguém, ghosting em inglês, conhece alguém que já. Também há quem já tenha se apaixonado online e teve o coração partido quando descobriu que a pessoa amada não era tudo aquilo que se imaginava. Talvez você já tenha se pegado contando os likes que recebeu em uma postagem, ou tenha um amigo que mostra tudo o que faz na internet.

No fundo, o seriado é uma análise sobre a banalização do sexo, sobre os relacionamentos virtuais e sobre a vontade de ser aceito num mundo em que o que vale é a imagem que você passa e não quem você realmente é. Boa pedida pra quem gosta de documentários. Vale a pena assistir, pensar um pouco e, quem sabe, até mudar a maneira de encarar algumas coisas.

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Bárbara Oliveira

Bárbara já foi jornalista, professora, tradutora e palhaça (no sentido denotativo e no conotativo também). Ri das coisas mais bobas e adora piada ruim. Sabe de cor as falas dos seus seriados e filmes favoritos, tem medo de boneca e não assiste a filmes de terror de jeito nenhum. Na verdade, até assistiria se oferecessem muito dinheiro. É sarcástica e meiga, por incrível que pareça. Sonha em ter um pug preto, gordo e bem vesgo. Gosta muito de chá.

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