Chewing Gum: o racismo tratado com humor ácido e muita crítica

Chewing Gum: o racismo tratado com humor ácido e muita crítica

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Poucas comédias são capazes de te fazer rir de coisas controversas e polêmicas. ‘Chewing Gum‘ é uma dessas séries. Lançada em 2015 e adaptada da peça ‘Chewing Gum Dreams‘, monólogo baseado na vida da atriz Michaela Coel, a série tem duas temporadas, de seis episódios cada, disponíveis no catálogo da Netflix e aborda extremismo religioso e a hipocrisia dos fanáticos, sexualidade e misoginia. O foco central do programa, entretanto, é o racismo. Sempre presente, ele é alvo de críticas ácidas que poderiam até ser esquecidas em meio às situações absurdas que arrancam risadas. Mas é por isso mesmo que ‘Chewing Gum’ é diferente: ela te faz rir e logo depois te questiona, “mas por que você tá rindo disso?”.

“Minha mãe ia me chamar de Alyssa, doce anjo em indiano, mas, quando me viu, me chamou de Tracey”. Essa é a primeira frase dita por Tracey Gordon, interpretada pela própria Michaela e protagonista do programa. A série inteira tem diálogos dela com a câmera, rompendo a quarta parede, e isso é algo que deixa tudo muito mais engraçado. Tracey é uma jovem negra de 24 anos, que mora com a mãe e a irmã em um conjunto habitacional construído para abrigar pessoas de baixa renda em Londres, e funcionária de um mercadinho da vizinhança. Por causa da criação da mãe, uma pastora evangélica fanática, ela e sua irmã nunca sequer beijaram alguém. Porém, o maior desejo de Tracey é perder a virgindade. Logo no primeiro episódio, ela tenta transar com o namorado, Ronald (John MacMillan), e, para isso, pede a ajuda da melhor amiga, Candice (Danielle Isaie).

Olha, Candice pode até ser uma boa amiga, mas a produção que ela fez na Tracey ficou horrorosa. De peruca loira, lentes azuis e batom rosa-choque, Tracey diz, “Eu estou parecendo a Beyoncé”, muito emocionada em uma das melhores cenas da temporada. Claro que a crítica ao racismo está bem ali: por que colocar peruca loira e lentes azuis para seduzir alguém? Os planos de Tracey não dão certo e ela é rejeitada pelo namorado mega religioso que, como depois descobrimos, é gay (e completamente egocêntrico).

chewing-gum

Ela, então, começa a se relacionar com um dos seus vizinhos, Connor Jones (Robert Lonsdale). Connor é branco, de olhos claros, e isso é o tempo todo motivo de piada entre os amigos de Tracey. Isso e o fato de Connor ser um pouco lerdo e não trabalhar. Os dois atores são muito engraçados juntos. Uma das cenas mais divertidas de todo o seriado é quando Tracey senta na cara do Connor, depois de Candice dizer que os homens gostam disso. A cara que o Connor faz enquanto ela beija – ou melhor, quase suga – a testa dele também é impagável.

Outra personagem bem engraçada é Cynthia, irmã de Tracey. Fanática, Cynthia julga quase tudo como sendo pecado, apesar de também ter “recaídas” quando, por exemplo, assiste a filmes pornográficos escondida. A atriz Susan Wokoma consegue transformar alguém que, supostamente, seria super irritante em uma pessoa extremamente cômica. Os diálogos entre ela e qualquer outro personagem e, principalmente, as caretas que ela faz constantemente te fazem chorar de rir. Todos os personagens, na verdade, são ótimos, incluindo até mesmo o insistente primo de Tracey, conhecido como Boy Tracy.

Um ponto muito legal é a imaginação da protagonista e os momentos dela sozinha, em que ela analisa as situações e até brinca de boneca nos momentos de folga da loja, por exemplo. Além das conversas que ela tem com você no meio s episódios, dá pra saber o que se passa na cabeça insana dela ela acaba que ela vira uma espécie de amiga no fim das contas.

Mas ‘Chewing Gum’ incomoda também. Em uma das cenas da segunda temporada, Tracey é abordada por um homem que, inicialmente, parecia perfeito, mas que logo depois se revela bem racista quando pergunta “de onde você veio mesmo?”, dando a entender que alguém de pele negra como a dela não poderia ser da Inglaterra. Ou quando ele pede para que ela se vista com roupas tipicamente africanas e dance pra ele. Há ainda a cena em que um homem supõe que Tracey seja traficante quando ela participa de um processo seletivo para trabalhar em uma loja.

O fato é que Tracey é vista, hora como objeto sexual, hora como não atraente o suficiente, ou até mesmo como traficante, tudo por causa da cor da pele e do gênero, e o seriado trata disso com humor, mas também com muita crítica. Apesar de ser comédia, ‘Chewing Gum’ deveria também ser visto como um programa que instiga e incomoda, porque é necessário incomodar. E Tracey, ainda que consiga rir das situações que acontecem com ela e te convide para fazer o mesmo, também te pergunta: “Mas por que é que você tá rindo disso?”.

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Bárbara Oliveira

Bárbara já foi jornalista, professora, tradutora e palhaça (no sentido denotativo e no conotativo também). Ri das coisas mais bobas e adora piada ruim. Sabe de cor as falas dos seus seriados e filmes favoritos, tem medo de boneca e não assiste a filmes de terror de jeito nenhum. Na verdade, até assistiria se oferecessem muito dinheiro. É sarcástica e meiga, por incrível que pareça. Sonha em ter um pug preto, gordo e bem vesgo. Gosta muito de chá.

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