‘Big Mouth’: desenho (bem) adulto sobre pré-adolescentes da Netflix

‘Big Mouth’: desenho (bem) adulto sobre pré-adolescentes da Netflix

Autor: 103

“Será que eu sou normal? O que tá acontecendo comigo?”. Esses são alguns dos primeiros pensamentos da maioria dos pré-adolescentes que, de uma hora pra outra, vêem o corpo, as vontades e as preferências mudarem com a puberdade. É disso que o novo desenho da Netflix, ‘Big Mouth‘, trata. Criada por Nick Kroll e Andrew Goldberg, a série é baseada nas experiências dos dois durante o ensino fundamental no interior de Nova York, e tem como protagonistas os dois jovens na faixa dos 12, 13 anos.  E, se você pensa em mostrar o programa para seus filhos (as), seus sobrinhos (as), primos (as) ou irmãos mais novos, considere duas vezes. Ainda que foque no início da adolescência, a animação é feita para adultos, já que contém situações e pensamentos bem fora do convencional. Está longe de ser considerada um material educativo.

‘Big Mouth’, inclusive, já sofreu críticas por pesar a mão na sexualização dessa fase e por colocar pré-adolescentes em papéis mais adultos em determinadas cenas. Mas é por tudo isso que ‘Big Mouth’ cumpre bem o seu papel: ao mesmo tempo em que é absurda em alguns momentos, como todo bom desenho, satírica e desconfortável em outros, ela também torna muito fácil se identificar com os personagens. Afinal, todo adulto passou pela puberdade. Tudo bem que talvez não no mesmo nível que é retratada no desenho, mas no final das contas o espectador ri de si mesmo ao ver aquela explosão de hormônios bagunçar a cabeça de Nick, Andrew e de seus colegas de escola, Jessi, Missy e Jay.

Logo no início do primeiro episódio, somos apresentados a um monstro que acompanha Andrew e percebemos que esse monstro representa os hormônios e, claro, o impulso sexual que aparece nas horas mais inoportunas. O interessante é que o monstro não é exclusividade de Andrew, apesar de não aparecer para todos os personagens (ainda). Jessi, após a primeira menstruação, conhece a sua própria monstrinha, que a leva a momentos de choro, de extrema raiva e, também, de descobertas sexuais e do próprio corpo. Nesse quesito, aliás, ‘Big Mouth’ tá de parabéns. De maneira bem leve, o desenho trata temas que ainda podem ser um pouco desconfortáveis para muita gente adulta. Um exemplo disso é quando Jessi olha para as próprias partes íntimas em um espelho e tem uma conversa bem animada e divertida com seu órgão genital.

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Nesse mesmo episódio, Andrew e Nick ficam curiosos sobre um livro romântico que todas as meninas e mulheres da cidade começam a ler e que conta a história de um casal espanhol e de um galã chamado Gustavo. É nesse momento que os meninos descobrem que as meninas também sentem impulsos sexuais, mas de um jeito diferente. Chega a ser até adorável.

Outro tópico abordado de forma bastante interessante é a orientação sexual. Em um dos episódios, Andrew não tem certeza se sente atração por garotos ou garotas e acaba chegando à conclusão de que é hétero, sem antes ter conversas com Matthew, seu colega de turma abertamente gay, e com o fantasma de Freddie Mercury (sim, ele mesmo, o finado vocalista da banda Queen). Aliás, eles cantam até uma música juntos que gruda na cabeça.

A turma parece achar normal conversar com fantasmas, como o músico de jazz Duke, e monstros hormonais, ao que parece. É aí que entra a parte totalmente nonsense do seriado. Jay, o adolescente aspirante a mágico de temperamento explosivo, inclusive, ganha um episódio parcialmente focado no seu relacionamento com… um travesseiro. UM TRAVESSEIRO, que chega a engravidar e some com o bebê logo depois. Sem problemas para Jay, que consegue achar consolo no tapete do banheiro. É o baile que segue, não é mesmo? Uma coisa muito louca.

O programa é divertido e polêmico, o que é bom, mas erra ao tentar chocar demais em certas cenas ou causar desconforto sem muito motivo, só por querer causar mesmo, e isso cansa em alguns momentos. Quando os pais de Nick aparecem em cena, por exemplo, causam um incômodo desnecessário porque comentam tanto sobre a intimidade deles que, lá pro final da temporada, não acrescentam mais em nada e fazem você revirar os olhos involuntariamente. Já o treinador do time de basquete da escola dos meninos também não serve de muita coisa: não é engraçado, não é carismático; pelo contrário, ele é irritante às vezes.

‘Big Mouth’ é mais uma animação da Netflix que pode te arrancar boas risadas, mas ainda não tem a genialidade de outros desenhos adultos que são produzidos fora do serviço de streaming, como o mais recente sucesso do gênero, ‘Rick and Morty‘, e os já consagrados ‘Family Guy‘ (cujo um dos roteiristas é Andrew Goldberg, diga-se de passagem), e ‘Os Simpsons‘. Talvez falte roteiros um pouco mais elaborados e menos falas e situações criadas com o simples objetivo de chocar. No fim das contas, se você conseguir ignorar essas pequenas falhas, vai conseguir se divertir e relembrar esse período da vida que é tão conturbado quanto maravilhoso.

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Bárbara Oliveira

Bárbara já foi jornalista, professora, tradutora e palhaça (no sentido denotativo e no conotativo também). Ri das coisas mais bobas e adora piada ruim. Sabe de cor as falas dos seus seriados e filmes favoritos, tem medo de boneca e não assiste a filmes de terror de jeito nenhum. Na verdade, até assistiria se oferecessem muito dinheiro. Sonha em ter um pug preto, gordo e bem vesgo. Gosta muito de chá.

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