Análise | O futuro assustador de ‘The Handmaid’s Tale’

Análise | O futuro assustador de ‘The Handmaid’s Tale’

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Ficha técnica

Análise | O futuro assustador de ‘The Handmaid’s Tale’

Título Original: The Handmaid’s Tale
Lançamento: 26 de abril de 2017
Criador: Bruce Miller
Roteiro: Margaret Atwood
Gênero: Drama, futuro distópico
Canal: Hulu
Produção executiva: Bruce Miller, Warren Littlefield, Reed Morano, Daniel Wilson, Fran Sears, Ilene Chaiken
Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Alexis Bledel, Madeline Brewer, Ann Dowd, O. T. Fagbenle, Max Minghella, Samira Wiley

Avaliação Uber7

Todos os dias, se você abrir qualquer site de notícias ou se somente der uma olhada no feed das suas redes sociais, você se depara com comentários radicais, que defendem o regime militar, que destilam ódio contra as minorias e que objetificam as mulheres, utilizando como justificativa a “manutenção da moral e dos bons costumes”. Às vezes, você até perde um pouco a esperança quando percebe que, se existem pessoas que realmente pensam assim, um futuro em que os direitos humanos básicos são postos de lado não parece ser algo tão impossível.

Como uma espécie de pesadelo, ‘O Conto da Aia‘, em inglês “The handmaid’s tale“, é o seriado do serviço americano de streaming Hulu que fala sobre misoginia, abusos psicológicos e físicos, doutrinação, extremismo religioso, ditadura e perseguição a todos que não seguirem as ordens (às mulheres e à comunidade LGBT, especialmente). Baseado no romance de mesmo nome da canadense Margaret Atwood, de 1985, o programa estreou em abril deste ano e já ganhou oito prêmios Emmy, incluindo o de melhor série dramática.

A história se passa num futuro não tão distante, em que o presidente e quase todos os políticos eleitos que constituem o congresso dos Estados Unidos são assassinados. Por causa da poluição, das mudanças climáticas e de DSTs, a maior parte da população sofre problemas de fertilidade e poucas mulheres conseguem engravidar e prosseguir com a gestação. Se aproveitando do caos com o discurso de que iriam recuperar a ordem, um grupo de extremistas católicos assume o poder e cria um regime totalitário baseado no antigo testamento; assim, surge a República de Gileade. O que restou do país, que hoje ainda é considerado um símbolo de liberdade, são apenas dois estados, Alaska e outro não especificado.

A sociedade muda drasticamente, sendo divida em castas, nas quais cada indivíduo tem suas obrigações bem estabelecidas. Os cargos de poder são reservados apenas aos homens, e as mulheres têm apenas dois propósitos: cozinhar e procriar. Estimuladas a vigiar umas as outras, elas são proibidas de ler e de se informar sobre qualquer coisa e são dividas entre “marthas“, responsáveis por cuidar da casa e cozinhar para as famílias mais ricas, as “tias”, que doutrinam e punem as demais mulheres, e as aias/servas, que servem para engravidar de seus senhores. Em um ritual bizarro de estupro, as servas devem olhar para o teto durante o coito, que só acontece após a leitura de uma passagem bíblica e na presença das esposas estéreis dos senhores. Esse rito acontece uma vez por mês até que a serva engravide. Ela, depois, deve permanecer na casa até que o bebê deixe de mamar. Quando o bebê estiver maior, a aia vai para a casa de outra família e tudo se repete.

A Woman's Place

Offred (Elisabeth Moss) é a narradora e personagem principal. Antes chamada June, ela foi capturada pela polícia, conhecida como “Olhos de Deus”, enquanto tentava fugir para o Canadá com seu marido e sua filha pequena, Hannah. Obrigada a se tornar uma aia, Offred foi designada para trabalhar na casa de um importante comandante do governo, Fred Waterford (Joseph Fiennes) –  daí o nome Offred, “of Fred“. Destituída de qualquer individualidade ou vontade, Offred se mantém firme por causa de sua filha, a quem ela espera reencontrar. Ela também encontra forças em sua amiga de longa data, Moira (Samira Willey), durante o treinamento para se tornar uma serva, e em outra aia, Ofglen (Alexis Bledel), que faz parte de um grupo anti-regime chamado Mayday. Com o passar do tempo, Offred acaba tendo um envolvimento mais profundo com Waterford e também se relaciona com o motorista Nick (Max Minghella), de quem ela desconfia ser um espião do governo.

A série é viciante, quanto mais você assiste, mais quer assistir para saber o que acontece com as personagens. Não é por acaso que a produção é uma das mais elogiadas da atualidade. Com pontuação 92 de 100 baseada em 40 críticas no site Metacritic e indicação de “aclamação universal”, já foi considerada o melhor seriado de 2017. As atuações também são brilhantes, principalmente a de Elisabeth Moss, que inclusive ganhou o Emmy de melhor atriz de drama, e de Ann Dowd, simplesmente fantástica no papel da odiosa Tia Lydia. O ambiente de desconfiança e desesperança, às vezes, dá lugar a uma ponta de alegria quando as coisas parecem ter solução. Torcer por June/Offred se torna algo tão natural para o espectador que, já nos primeiros minutos do piloto, ficamos pensando em como ela pode fugir daquele pesadelo. É fácil se colocar no lugar dela, ainda mais se você é uma mulher ou se sofre algum tipo de discriminação ou injustiça social de qualquer gênero.

Um ponto interessante da trama são os flashbacks, que mostram a sociedade mudar aos poucos, de acordo com as lembranças de June/Offred. “Agora eu estou acordada para o mundo. Eu estava dormindo antes. Foi assim que deixamos isso acontecer. Quando aniquilaram o Congresso, nós não acordamos. Quando eles culparam os terroristas e suspenderam a Constituição, nós também não acordamos. Nada muda instantaneamente. Em uma banheira que é aquecida gradualmente, você acaba fervendo até a morte sem perceber”, disse a personagem antes de uma de suas memórias mostrar um homem insultando tanto ela quanto Moira num restaurante (“suas vagabundazinhas”) e uma intervenção do governo no trabalho de June, quando todas as mulheres do escritório foram demitidas por causa da nova lei estabelecida pelos religiosos.

 ‘O Conto da Aia’ e a onda de conservadorismo

Margaret Atwood, autora do livro que inspirou a criação do seriado, gosta de se referir à sua obra como uma “ficção especulativa”, já que tem bases reais na história humana, que é um tanto quanto cíclica. Apesar de ter sido escrito há 32 anos, o conto permanece bastante atual, ainda mais agora, com a crescente onda de conservadorismo, tanto no Brasil quanto em vários outros países. A realidade alternativa de ‘O Conto da Aia’ parece assustadoramente possível e, por isso, é um choque para a maioria das pessoas que leem o livro ou assistem a série.

Quando o nosso próprio judiciário dá aval para que religião seja ensinada nas escolas públicas (sendo que religião deve ser algo pessoal e não imposta em escolas de um estado laico) e para que homossexualidade seja tratada como doença, quando mulheres são estupradas a cada 11 minutos, quando homens se sentem confortáveis o suficiente para ejacular em qualquer moça dentro de um transporte coletivo, quando parlamentares trabalham para aprovar leis de cunho religioso no Congresso Nacional e quando um grupo cada vez maior diz apoiar a possível candidatura à presidência de um misógino e declarado apoiador do militarismo, uma sociedade totalitária, religiosa e agressora às vezes aparenta ser iminente.

Se uma mulher, hoje, é morta pelo companheiro por ciúme, ela é a condenada, mesmo após a morte, por ter “dado motivo”. Em uma cena perturbadora do seriado, Janine, uma das aias, fala sobre o estupro coletivo que sofreu e todas as outras mulheres são forçadas a dizer que a culpa foi dela e que o crime aconteceu como uma forma de correção e de ensinamento de Deus. Não dá para perceber a diferença entre a ficção e a realidade nesse caso, já que desde pequenas, meninas são ensinadas por suas próprias mães a “se comportarem direito” para “não chamar a atenção dos homens”, porque, até mesmo se uma garota é abusada, a culpa não é do abusador, é dela.

Os direitos humanos devem ser mantidos e respeitados, principalmente a liberdade. Tantas revoluções e lutas foram travadas para que mulheres e homens fossem tratados como iguais, independente de idade, orientação sexual, classe social e cor da pele. Ainda há muito que ser conquistado, até porque a onda conservadora está, talvez, um pouco mais barulhenta. A maioria, entretanto, ainda está acordada, assim como June acordou para o mundo. ‘O Conto da Aia’ pode ser evitado se for lembrado todas as vezes em que alguém destilar ódio a quem quer seja. É como escreveu uma das aias no armário escondido do quarto, em Latim: “Nolite te bastardes carborundorum”.

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Bárbara Oliveira

Bárbara já foi jornalista, professora, tradutora e palhaça (no sentido denotativo e no conotativo também). Ri das coisas mais bobas e adora piada ruim. Sabe de cor as falas dos seus seriados e filmes favoritos, tem medo de boneca e não assiste a filmes de terror de jeito nenhum. Na verdade, até assistiria se oferecessem muito dinheiro. Sonha em ter um pug preto, gordo e bem vesgo. Gosta muito de chá.

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