Uber Class | O que é cyberpunk?

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Autor: 258

Deve ser de conhecimento geral que o cyberpunk é, antes de tudo, um subgênero de ficção científica. O conceito de “high tech, low life” (alta tecnologia, baixa qualidade de vida) é fundamental para entender o contexto sócio-cultural dessas obras, uma vez que todo o cenário abordado aqui parte do grande desenvolvimento tecnológico e científico associado à revolta com o status quo.

Esse estilo de vida se caracteriza pela inclusão de elementos cibernéticos à vida das pessoas, mas as diferenças sociais acabam criando uma segregação ainda maior entre ricos e pobres. Some a isso aspectos como superpopulação, degradação do meio-ambiente, guerras e rotinas de produção exploratórias, que geram insatisfação nas camadas mais baixas da população.

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O visionário autor norte-americano William Gibson pode ser considerado um dos precursores do conhecimento científico aplicado ao entretenimento como conhecemos. Ele visualizou o conceito de cyberespaço antes mesmo da difusão da internet. Foi o próprio Gibson quem criou esse termo em um conto – ‘Burning Chrome’ – e o aperfeiçoou em sua obra mais importante: ‘Neuromancer’. Isso tudo em meados dos anos 80.

Então, partindo do entendimento de que a vida humana depende da tecnologia em níveis profundos, chegamos em uma dúvida que pode surgir para os novatos nessa área: se a tecnologia é tão avançada, a qualidade de vida não deveria ser muito maior que a atual? Todos teriam acesso a mais facilidades para o dia-a-dia, a produtividade seria maior, etc, etc, etc, certo?

Na verdade, não. A ciência realmente evolui ao ponto de oferecer simplicidade ao cotidiano da humanidade, porém, apenas se você tiver um determinado poder aquisitivo. Aí que entra o elemento da revolta popular – e o complemento “punk” da designação “cyberpunk”.

A sociedade, em vez de melhorar a oferta de insumos a todos, limita a disponibilidade de produtos e serviços apenas a quem pode pagar por eles. Além disso, como todas essas histórias se passam no futuro, crises atuais já se encontram em situações muito piores: escassez de matérias-primas naturais, poluição do ar, da água e do solo, falta de alimentos, crescimento da indústria bélica, forte ligação de governos com grandes corporações… Por isso os protagonistas das histórias geralmente são pobres, criados em periferias perigosas – ou oficiais militares questionam o sistema estabelecido.

Mas quais obras são cyberpunk?

No Ocidente, a principal produção cinematográfica no início desse gênero é ‘Blade Runner’ (1982), dirigido por Ridley Scott. O filme se passa em uma Los Angeles no futuro, que reproduz basicamente todas as características citadas anteriormente. Aqui, o elemento tecnológico vem da criação de clones de animais extintos para os mais diversos fins, até que se torna possível fabricar “Replicantes” humanos.

O plot do filme se apóia em uma característica também comum nos filmes do gênero: as reflexões sobre inteligência artificial. Os Replicantes se rebelam e passam a ser proibidos, dando espaço às figuras dos Caçadores de Replicantes. O filme acompanha Rick Deckard (Harrison Ford), ex-Caçador que volta à ativa para capturar um perigoso grupo de fugitivos.

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Outros grandes ícones das distopias cyberpunk são ‘Akira’ (1988) e ‘Ghost In The Shell’ (1995), ambos originados em mangás e adaptados para filmes de animação.

Assim como ‘Blade Runner’, ‘Ghost in the Shell’ – de Masamune Shirow – bate pesado na tecla da inteligência artificial. O filme, inspirado em um mangá lançado na década anterior, se passa em uma grande cidade chamada New Port City e os seres humanos já desenvolveram tecnologia que permite a união de peças eletrônicas ao próprio corpo. Dessa forma, além de super-cérebros conectados a quantidades massivas de informação, membros cibernéticos e acessórios “tecnorgânicos” passaram a ser acoplados ao organismo.

A personagem principal é a Major Motoko Kusanagi, uma oficial que tem todo o corpo robótico, mas que teve o cérebro humano preservado após um acidente. Ela tem a missão de capturar um criminoso extremamente talentoso que conseguiu hackear os sistemas de pessoas para utilizá-las com fins políticos.

O diferencial de ‘Ghost in the Shell’ é que o foco não está no contexto político ou científico, mas, sim, nos dilemas existenciais da humanidade. O quadro reduzido da história da Major é um retrato de algo muito maior, aplicável a toda aquela realidade: o que define a humanidade de alguém? Este mangá/anime, inclusive, é uma das principais referências das Irmãs Wachowski na criação da trilogia ‘Matrix’.

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Já ‘Akira’ – de Katsuhiro Otomo – talvez traga o melhor retrato da sociedade cyberpunk já criado na cultura pop. O cenário é a metrópole Neo-Tóquio, uma nova cidade construída na Baía de Tóquio após a original ter sido destruída na III Guerra Mundial. Os protagonistas, Kaneda e Tetsuo, são integrantes de gangues de motoqueiros que frequentemente se envolvem em confusões com a polícia e, depois de participarem de um acidente, acabam inseridos em uma grande trama. Isso tudo envolvendo experiências de exploração dos poderes psíquicos de algumas crianças e o potencial uso delas como armas de guerra.

Ao contrário de ‘Ghost in the Shell’, porém, ‘Akira’ mantém a atenção totalmente voltada para os aspectos sócio-políticos, atribuindo aos personagens o papel de ilustrações da indignação com o tal status quo. Kaneda, Tetsuo e cia. são reflexos de uma parcela da sociedade insatisfeita com a corrupção, concentração de renda, marginalização de pessoas mais pobres, escassez de postos de trabalho, limitação do acesso à educação… Qualquer semelhança com a nossa realidade definitivamente não é apenas coincidência.

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Nas distopias cyberpunk, a concentração de renda é uma característica intrínseca a qualquer país, independente do continente ou da época em que a história se passe. A violência é uma consequência natural e, juntando a isso o elemento tecnológico, fica tudo ainda mais interessante do ponto de vista narrativo – e preocupante, porque podemos estar a caminho desta realidade nada agradável.

 

Mais cyberpunk no Oriente

Os animes são outra fonte incrível de obras cyberpunk. Várias produções podem despertar reflexões similares sobre a relação entre tecnologia e sociedade.

Cowboy Bebop’ (1998) é uma delas. A Terra se tornou inabitável e a humanidade passou a explorar novos planetas, mas além da trama principal – que se baseia no desejo de vingança do protagonista – o anime trabalhou aspectos mais profundos sobre solidão e o sentido da vida.

Ergo Proxy’ (2006) também entra no espectro de obras mais reflexivas, nas quais a definição de “humanidade” entra em xeque a partir do desenvolvimento de consciência em inteligências artificiais.

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Além das telas

As obras cinematográficas são admiradas porque é possível entender os universos alternativos de forma gráfica, com suas paisagens escuras, cidades sujas contrastando com hologramas gigantes mega coloridos. Mas a origem disso tudo vem de outras mídias: livros.

Antes mesmo de William Gibson, livros como ‘Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?’ (1968) surgiam e pavimentavam o caminho que seria trilhado por seus sucessores. Neste cenário, Philip K. Dick criou um mundo devastado e desolador, mais tarde adaptado ao cinema em ‘Blade Runner’. Os temas retratados eram os mesmos citados anteriormente: recursos naturais desaparecendo, alta tecnologia sendo desenvolvida, debates sobre inteligência artificial, entre outros.

Em 1984, saiu ‘Neuromancer’, de Gibson. A trama acompanhava um ex-hacker que tentou roubar seus patrões e acabou envenenado por eles com uma toxina que bloqueava seu acesso à Matrix. Ele, então, recorreu a clínicas clandestinas atrás de uma cura e da restauração do seu sistema neural. Sim, os filmes de ‘Matrix’ também beberam dessa fonte e assumidamente carregam inspirações dessa obra.

Nos anos 90, Neal Stephenson também deu sua contribuição: ‘Snow Crash’ (1992). Fortemente influenciado pelos títulos da década anterior, a estrutura conturbada levou a história para um lado mais filosófico. Um entregador de pizzas de uma região controlada pela máfia se envolveu em uma trama de perseguição virtual contra um hacker criminoso em uma realidade virtual.

+Leia também: Resenha | Neuromancer, de William Gibson

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Quem está conhecendo o mundo das ficções científicas cyberpunk pode usar as obras citadas como mapa de onde começar. Uma vez familiarizado, outros filmes e livros vão pipocar nas suas indicações e vai ser fácil se tornar um expert.

Já os mais experientes podem comentar aí: quais suas obras de cyberpunk preferidas?

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Filipe Rodrigues

Jornalista, apaixonado por futebol, nerd e leonino. Apesar de acompanhar tudo o que acontece no mundo dos esportes, escolheu o universo das nerdices pra dedicar seu tempo produtivo e criativo. Gosta muito de Superman; entre Vingadores e X-Men fica com os mutantes; adora coisas nostálgicas como Digimon, Power Rangers e Dragon Ball; e seu filme favorito agora é Mad Max: Estrada da Fúria!

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