Uber Class | O que é a Jornada do Herói?

Uber Class | O que é a Jornada do Herói?

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Fãs de cinema com um pouco mais de bagagem conseguem observar semelhanças em muitos filmes no que diz respeito à estrutura narrativa – e não é à toa. Existe uma espécie de modelo a ser seguido para que a contação de histórias seja interessante e prenda a atenção do espectador até o fim. Esse modelo é a “jornada do herói” ou “monomito”, algo muito mais comum do que podemos imaginar.

Para contextualizar, esse conceito de Jornada do Herói foi criado pelo antropólogo norte-americano Joseph Campbell (1904-1987) no livro “O Herói de Mil Faces” (1949). São 12 estágios pelos quais os protagonistas de um filme devem passar para que sua narrativa seja completa, de forma a satisfazer as expectativas do público.

Uma vez que se conhece os passos da Jornada, é possível traçar dezenas de paralelos com obras consagradas na cultura pop. Veja só:

1)  Mundo comum: antes da história começar, o protagonista se encontra em uma rotina normal, em um ambiente ao qual está acostumado. Ex: Luke Skywalker vivendo tranquilamente em Tatooine, alheio aos grandes conflitos vividos no universo, em ‘Star Wars’;

2) Chamado da aventura: por necessidade ou vontade, ele se vê obrigado a interromper essa rotina e partir em busca de uma solução para o problema apresentado. Ex: Hagrid conta a Harry que ele é um bruxo e deve comparecer ao seu primeiro ano letivo em Hogwarts, em ‘Harry Potter e a Pedra Filosofal’;

3) Reticência ou recusa: o herói não acredita que faz parte de um contexto tão complexo e diferente da sua vida até então. Geralmente o que o motiva a dar andamento à aventura é uma ação do antagonista/vilão. Ex: o próprio Harry não acredita em Hagrid até ter uma prova de que ele realmente é um bruxo.

4) Encontro com um mentor: completamente alheio à nova realidade, o herói precisa de alguém que o guie pelos novos caminhos. Este mentor é o principal conselheiro, professor e companheiro no início das aventuras. Não é surpresa para ninguém que sua morte pode servir como um incentivo para que o protagonista siga em frente. Ex: Katniss conhece Haymitch antes dos primeiros Jogos Vorazes; Marty McFly é chamado por Doc Brown para ajudar com uma experiência em ‘De Volta Para o Futuro‘; Frodo e Sam passam a contar com a ajuda de Gandalf em ‘Senhor dos Anéis‘.

jornada do heroi frodo e gandalf

5) Travessia do limiar: decisão de entrar na nova realidade e abraçar, de fato, a aventura. Se formos pensar no filme com três atos (início, meio e fim), este é o fim do primeiro. Aqui acontecem os primeiros combates, as primeiras vitórias, o aumento da confiança. Ex: John Wick começando a caçada por vingança; o encontro de Kaneda com seus aliados e o início da operação para resgatar Tetsuo, em ‘Akira’.

6) Testes, aliados e inimigos: o meio do filme, compõe quase todo o segundo ato e concentra boa parte da história. Nas dificuldades, o herói contará com ajuda (já esperada ou de surpresa), descobrirá novos aliados e irá se deparar com adversários. Ex: Katniss e Peeta começam os Jogos Vorazes; o início a festa de ‘Projeto X‘.

7) Aproximação do objetivo: apesar de chegar perto de uma conclusão, mais dificuldades parecem estar surgindo e a resolução das questões passa a não ser uma certeza. Ex: Truman começa a ver cada vez mais sinais de que algo na sua realidade está errado, em ‘O Show de Truman’.

8) Provação máxima: o ápice do filme, o grande combate entre bem e mal, a hora em que o protagonista enfrenta o principal desafio. Tem que prender bastante a atenção do público e entreter de forma satisfatória, por vai ser a parte mais lembrada pelos espectadores. Ex: Marty McFly começa a desaparecer em ‘De Volta Para o Futuro’ e tem que correr contra o tempo para ajudar seu pai; a Batalha de Hogwarts, em ‘Harry Potter e as Relíquias da Morte Pt. 2’; Luke vs. Darth Vader em ‘Star Wars’.

jornada do heroi luke e darth vader

9) Recompensa (ou elixir): por ter tido êxito na provação, o protagonista consegue algo que gostaria de ter desde o início. Um dos grandes problemas que o cinema apresentou até meados dos anos 2000 é que esta recompensa geralmente era a mocinha do filme, associando a imagem da mulher a um prêmio e retirando das personagens femininas qualquer personalidade. Porém, muitas ficções não reproduziam esse modelo, apostando em personagens como Sarah Connor (‘Exterminador do Futuro‘) e Ripley (‘Alien‘). Ex: o Homem-Aranha consegue a atenção e o reconhecimento de Tony Stark em ‘Homem-Aranha: De Volta ao Lar’.

10) Caminho de volta: item frequentemente pulado, mas quando existe, é bem óbvio. Quando o herói atinge um status de… herói, ele retorna para suas origens. Ex: Frodo depois de destruir o Anel em ‘Senhor dos Anéis’; Katniss depois de vencer os jogos com Peeta no primeiro ‘Jogos Vorazes‘.

11) Depuração/ressurreição: há alguma sub-trama não resolvida que fica pendente e precisa ser tratada. Se a questão for resolvida naturalmente, não temos um ponto de virada inesperado – o que é o mais comum, obrigando o herói a aplicar o que aprendeu durante sua saga. Ex: o encontro entre Cooper e sua filha já idosa em ‘Interestelar’.

12) Regresso transformado: agora sim, o herói consegue se encaixar no seu mundo normal novamente, tendo aprendido com as lições das suas aventuras – ou não. Ex: os brinquedos retornam para a casa de Andy em ‘Toy Story’.

jornada do heroi toy story

 

Como vocês podem observar, essa estrutura se repete exaustivamente nas produções cinematográficas. Mais do que isso, o padrão narrativo já era observado na Antiguidade, nas histórias sobre os mitos gregos, por exemplo.

A “magia do cinema” está na capacidade de identificar o modelo e ser capaz de trabalha-lo de forma a não se tornar cansativo ou repetitivo. Claro, não é sempre que um filme vai ser excelente seguindo a fórmula mais óbvia, mas, para um diretor ou um roteirista serem realmente bons, eles têm que dominar os fundamentos básicos – entre eles, a Jornada do Herói. A partir daí vem as escolhas mais disruptivas, o uso dos famosos plot twists, ou até mesmo a construção de múltiplas linhas do tempo para confundir o espectador.

 

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Comente quais filmes vocês mais gostam e que conseguem usar bem a jornada do herói!

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Filipe Rodrigues

Jornalista, apaixonado por futebol, nerd e leonino. Apesar de acompanhar tudo o que acontece no mundo dos esportes, escolheu o universo das nerdices pra dedicar seu tempo produtivo e criativo. Gosta muito de Superman; entre Vingadores e X-Men fica com os mutantes; adora coisas nostálgicas como Digimon, Power Rangers e Dragon Ball; e seu filme favorito agora é Mad Max: Estrada da Fúria!

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