‘Mãe!’: um filme para cada espectador

‘Mãe!’: um filme para cada espectador

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Ficha técnica

‘Mãe!’: um filme para cada espectador

Título original: Mother!
Data de lançamento: 21 de setembro de 2017
Direção: Darren Aronofsky
Gênero: Terror/Suspense
Produção: Darren Aronofsky, Scott Franklin, Ali Handel
Roteiro: Darren Aronofsky
Distribuição: Paramount Pictures
Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer

Avaliação Uber7

“Arte” é um conceito muito amplo, por isso é difícil aceitar que exista uma classificação específica como “filmes-arte” – todo filme é arte, ora bolas. Porém, assumindo esta nomenclatura para aqueles longas não-mainstream, podemos afirmar tranquilamente que ‘Mãe!‘ é uma das melhores obras cult feitas na década. Por definição, ele já não seria indicado para o público geral, acostumado a blockbusters e terrores cheios de sustos, e essa impressão apenas se confirma ao longo dos 120 minutos de exibição.

O diretor Darren Aronofsky conta a história de um casal estrelado por Jennifer Lawrence e Javier Bardem. A trama demora um bocado para se desenvolver – o que pode irritar o espectador que não está preparado para isso – pois o trabalho sobre as personalidades é feito de forma lenta, para que todos entendam a natureza do relacionamento. Os personagens não recebem nomes (assim como todos os outros), o que dificulta um pouco a aproximação do espectador com eles. Para contornar este impasse, o jogo de câmeras acompanha todos os acontecimentos da perspectiva da personagem de Lawrence: sabemos apenas o que ela sabe, vemos apenas o que ela vê, desconfiamos do que ela desconfia. Esta é uma tática muito usada em filmes de “terror-pipoca”, antecipando um súbito aumento da trilha e o surgimento de algum elemento que não estava ali antes. Em ‘Mãe!‘, no entanto, o efeito é de uma constante sensação de ansiedade e claustrofobia, já que os jumpscares não são utilizados.

Assim, a proximidade com a protagonista permite que o público crie com ela uma empatia quase imediata, algo reforçado pela boa atuação da atriz e pelo alto grau de imersão causado pela falta de trilha musical (só ouvimos os efeitos sonoros da casa e dos próprios personagens).

Quanto à história, ele é um escritor famoso que passa por uma fase de bloqueio criativo, enquanto ela é uma fiel companheira, que está no processo de finalização da reforma da casa onde eles moram, que foi danificada por um incêndio. Com o passar do tempo, a protagonista passa a ficar incomodada quando o parceiro começa a aceitar visitantes desconhecidos em casa – e é basicamente isso. De literal, não há muito mais para falar sobre o filme.

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Darren Aronofsky se preocupou em deixar o público com a mesma sensação de claustrofobia que a protagonista. Para isso, nos colocou diretamente no ponto de vista dela.

 

A partir do segundo arco, percebe-se que os acontecimentos da casa não são necessariamente reais, ou seja, o público está assistindo a uma série de metáforas para explicar algo que não está ali. Só então começa o exercício de descobrir o que é esse mistério e, se o filme não te pegou até aí, não pega mais. É exatamente por isso muita gente vai sentir um tédio absurdo dependendo da forma como interpretar o que está sendo exibido.

[Alerta de spoiler: a partir daqui, o texto contém spoilers do filme ‘Mãe!’. Se quiser assistir antes, salve o link e volte depois para nos contar o que achou!]

 

Experiências individuais

De acordo com o próprio Aronofsky, a essência do roteiro está nas referências bíblicas. As alegorias são apresentadas em ciclos bastante coesos, começando pelo surgimento do homem interpretado por Ed Harris, depois a sua esposa (a ótima Michelle Pfeiffer), seguidos pelos filhos, pela cena do velório e assim por diante. Cabe a nós identificar quais ciclos representam quais passagens e como isso se reflete na nossa realidade.

O início claramente é o Gênese, que conta a criação de Adão e Eva. Detalhes confirmam a “identidade” dos personagens e cenários, como o ferimento na costela de Ed Harris pouco antes de Michelle Pfeiffer aparecer e a insistência dela para entrar no escritório do dono da casa (o Éden) e tocar no cristal (o fruto proibido).

Em seguida, Caim e Abel reproduzem a cena do fratricídio motivado por ciúme e o velório de “Abel” mostra que Javier Bardem já exerce uma grande influência nos convidados, por mais incomodada que sua esposa esteja. Os vários avisos que ela dá para os visitantes não sentarem na pia acabam em um surto e em uma inundação que esvazia a casa (o dilúvio). Porém, outros ciclos se iniciam, um atrás do outro.

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Mas não se preocupe se você assistiu e não pegou as alegorias bíblicas. A graça de ‘Mãe!‘ está na infinidade de interpretações possíveis para o que acontece na casa, independente da sua crença ou estado de espírito quando assistiu ao flime. Uma vez que fica claro o papel de Jennifer Lawrence como a “Mãe Natureza”, todas as críticas sociais ficam mais claras.

Escritor e em meio a uma crise criativa, ele claramente não está satisfeito com o casamento, ao mesmo tempo que não quer abrir mão da mulher que tem – qualquer semelhança com outros relacionamentos abusivos da vida real não é mera coincidência. O sentimento de posse estabelecido entre o casal é ridiculamente comum e passa a ser prejudicial quando um começa a ser tratado apenas como “troféu” do outro frente à vida social dos dois (este aspecto é confirmado quando ela afirma que eles não fazem sexo há muito tempo, fazendo da esposa mais um objeto de exposição aos outros do que, de fato, uma companheira).

Quando o personagem principal retoma o fluxo de criatividade, o que fica exposta é a necessidade que a sociedade tem de criar ídolos. Mas de quem é a responsabilidade por isso: as pessoas depositam crédito demais às celebridades ou os próprios ídolos que se colocam em uma posição na qual podem receber atenção em tempo integral? No começo fica difícil saber qual o sentido desse ciclo, mas fica claro que o protagonista – no papel de Deus ou de qualquer outra forma que inspira idolatria – funciona como um mentor para seus devotos fãs ao mesmo tempo que supre suas carências pessoais. Enquanto isso, sua esposa (ou sua natureza) fica relegada a um segundo plano.

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A alegoria mais marcante acontece quando o filho de Deus finalmente nasce – de longe, esta é a sequência mais visceral (literalmente) de toda a produção. Apesar de ter nascido para ser o elo definitivo entre marido e mulher (Deus e natureza), a criança acaba virando objeto de um culto fervoroso, no qual importa mais a individualidade de cada pessoa do que a coletividade e a vontade dos próprios pais daquele pequeno ser. A morte, a reação dos fiéis ao comer a carne e o sangue do bebê, o espancamento da natureza em nome da fé e o inacreditável discurso de perdão proferido pelo pai compõem um plano impactante – e revoltante, na mesma medida.

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Novamente (e esta deve ser a frase mais repetida em todas as análises sobre este assunto) ‘Mãe!‘ não é um filme para qualquer um. O ponto de vista sugerido pela posição da câmera nos leva a acreditar que somos Jennifer Lawrence, mas à medida que as metáforas vão sendo concluídas chegamos à terrível conclusão de que nós somos, na verdade, os visitantes. Sim, somos os convidados inconvenientes que tratam a anfitriã com ironia e sarcasmo, que ignoram os pedidos para “manter a ordem na casa”, que roubam recursos, que cultuam uma figura inalcançável e que se esquecem dos valores que ele mesmo ensinou, tudo isso em nome de uma fé individualista e bélica. Jennifer Lawrence é a Natureza, Javier Bardem é Deus, a casa é a Terra e tudo o que destrói a harmonia entre eles somos nós. O final? Apocalipse, quando a Natureza se revolta e destrói tudo.

Uma mensagem pesada, mas cruelmente verdadeira.

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Filipe Rodrigues

Jornalista, apaixonado por futebol, nerd e leonino. Apesar de acompanhar tudo o que acontece no mundo dos esportes, escolheu o universo das nerdices pra dedicar seu tempo produtivo e criativo. Gosta muito de Superman; entre Vingadores e X-Men fica com os mutantes; adora coisas nostálgicas como Digimon, Power Rangers e Dragon Ball; e seu filme favorito agora é Mad Max: Estrada da Fúria!

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