Crítica | Mulher-Maravilha, o filme que todos nós precisávamos

Crítica | Mulher-Maravilha, o filme que todos nós precisávamos

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Ficha técnica

Crítica | Mulher-Maravilha, o filme que todos nós precisávamos

Título original: Wonder Woman
Lançamento: 01 de junho de 2017
Direção: Patty Jenkins
Gênero: Ação, aventura, super-herói
Produção: DC Entertainment, Atlas Entertainment, Cruel and Unusual Films
Distribuição: Warner Bros.
Roteiro: Allan Heinberg
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Connie Nielsen, Elena Anaya

Avaliação Uber7

Da silhueta feminina que caminha pelo Louvre, em Paris, à pequena Lilly Aspell, brincando de ser uma guerreira amazona nos gramados da Ilha Paraíso. Bastam cinco minutos de filme, sob uma narração inicial que revela o desejo genuíno de Diana Prince em salvar o mundo, para percebemos que ‘Mulher Maravilha’, em cartaz nos cinemas brasileiros a partir de junho, é o filme que todos nós precisávamos. Depois de mais ou menos 40 produções inspiradas na jornada solo de super-herois da Marvel e DC Comics, esta é a terceira vez que uma mulher tem protagonismo. A primeira, convenhamos, de real significado. Abrindo mais uma vez as portas para as suas semelhantes, tal como o fez na década de 40, nas histórias de William Moulton Marston, a Princesa de Themyscira invade as telonas com força, dando uma boa aula de feminismo e, ao mesmo tempo, servindo como um excelente acréscimo ao universo compartilhado da DC nos cinemas.

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Antes que a Viúva Negra de Scarlett Johansson ou a Mulher-Gato de Anne Hathaway mostrassem, de suas cadeiras de coadjuvante, o importante potencial destrutivo e comercial da ala feminina, as mulheres, aqui entre nós, já faziam parte desse cinema super-poderoso. Elas, aliás, estiveram ali o tempo todo – foram o ponto fraco do herói invencível (Superman); a mocinha em perigo que requer salvamento e proteção (Homem Aranha); o par romântico que obriga o garotão a virar homem (Thor); a garota privada da ação por ser “poderosa demais” para os heróis (Guerra Civil); o símbolo sexual que agrega valor e vende revista (Esquadrão Suicida) ou o exemplo de mobilidade social, cuja ascensão profissional se dá, apenas, mediante o relacionamento com um homem poderoso e influente (Homem de Ferro).

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Ainda que claramente mal representadas, as mulheres sempre fizeram parte dos blockbusters grandiosos da Marvel Studios e DC Entertainment no cinema, ofuscadas, apenas, por uma notória hegemonia masculina – e esse é o problema. Esse é o mal histórico e cultural que tem, em ‘Mulher Maravilha’, da diretora Patty Jenkins, o comecinho de uma solução que demandará, ainda, um bom tempo: quando a presença da personagem feminina é pensada somente pela perspectiva e para a satisfação dos homens, sem nunca ser justa ou, de fato, representativa. Sem nunca ter destaque fora do núcleo romântico que está inserida ou ser independente da figura masculina. Até agora.

É aí que reside a importância que o filme de Diana Prince, a simbólica guerreira Amazona, carrega – e é isso, também, que o torna tão bom entre tantas obras parecidas umas com as outras. Tão nociva quanto a banalização da mulher nos filmes, afinal, é quando a visão machista de Hollywood faz, deliberadamente, um gênero cinematográfico ser exclusividade dos homens. Super-heróis não são “coisa de menino” como fizeram com que as garotas acreditassem. Da mesma maneira, a ala masculina está igualmente autorizada a assistir os romances adaptados de Nicholas Sparks, que, pasmem, não são propriedade feminina e nem todas as mulheres apreciam. Em um belíssimo filme de origem, ‘Mulher Maravilha‘ quebra cada uma dessas convenções, esterótipos e preconceitos. Sua missão, desde o primeiro minuto de filme, com uma elegante Gal Gadot caminhando pelas ruas de Paris, é clara: afastar a ideia de inferioridade feminina sem precisar ser panfletária; inspirar as garotas a serem o que elas bem entenderem e, de quebra, educar Hollywood com uma heroína que não precisou ser hiperssexualizada para ser bonita e vender ingresso; tal como não precisou ser masculinizada para que fosse forte.

O que temos na mão de Patty Jenkins, em resumo, é um grande filme. Com 2h20 minutos de duração, o longa apresenta a heroína de maneira eficiente, trazendo os aspectos ideológicos e mitológicos de seu universo nas HQs e os explorando de maneira inteligente. O filme, em tese, é um apanhado de tudo o que é importante como ponto de partida para entender Diana, a Princesa de Themyscira, e seu papel na futura ‘Liga da Justiça, que estreia em novembro: vemos ali a ligação de seu povo com a mitologia grega, seu treinamento na Ilha Paraíso, o relacionamento com Steve Trevor e as irmãs Amazonas, a ida para o mundo dos homens, o principal inimigo de seus quadrinhos e, principalmente, a árvore genealógica que explica boa parte de suas habilidades sobre-humanas.

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Depois do fiasco de ‘Esquadrão Suicida’ e das duras críticas feitas ao frágil Batman Vs. Superman’ em 2016, a DC Comics precisava desse filme tanto quanto nós, espectadores, e finalmente acertou a mão, realizando, em parceria com a Warner Bros., um filme que funciona sem reservas – e supera, em muito, a história de origem do Capitão América, contada pela editora concorrente em 2011, com a qual o longa da Amazona foi bastante comparado. O CGI obscuro que pesou o filme de Zack Snyder foi deixado de lado e o roteiro, escrito por Allan Heinberg, soube trabalhar os elementos padrões de um filme de origem, tal como os horrores da Primeira Guerra, com sutileza. ‘Mulher Maravilha’, a propósito, está longe de ser cansativo ou repetitivo, embora seja um filme longo: enquanto tivemos inúmeras versões do Batman e Superman nas telonas, esta é a primeira vez que Hollywood se atreve a embarcar na jornada da Mulher Maravilha, que mesmo tendo 75 anos de existência, é pura novidade.

Se é um filme destinado às garotas? De forma alguma, mas é perfeitamente justificável que a ala feminina o aprecie de forma diferenciada. A versão de Jenkins e Gadot da heroína, tão simbólica para a causa feminista como um todo, é de uma sensibilidade apaixonante. Diana está linda na tela e não apenas pelo belo rosto da atriz israelense, mas pela maneira como a personagem se comove com os desastres numerosos da guerra; pelo jeito como traz o amor e a justiça como seus principais elementos ideológicos e pela maneira com que chega à velha Londres, com o olhos arregalados, tanto de frustração quanto de contentamento e ingenuidade. Diana conta a sua história desde a infância e nos apresenta todas as suas camadas, estágio por estágio, até sua adaptação no mundo dos homens – uma personagem delicada, que traz uma simplicidade cativante, sem deixar de ser guerreira, corajosa, violenta quando preciso, determinada em sua missão e, claro, esbanjar girlpower com uma série de diálogos memoráveis.

Os alívios cômicos são pontuais e certeiros, enquanto as coreografias de luta, em sua maioria, são um deleite para os olhos – assim como as artes que evocam a Grécia Antiga e a mitologia dos deuses, que dão um agradável ar fantástico ao longa, sem, contudo, desvencilhá-lo das características visuais da DC. Se a escolha por Gal Gadot foi criticada (pelo porte físico ou pela atuação mediana) hoje, não dá para negar: ela é o rosto da Mulher Maravilha e segura o filme de maneira competente, uma vez que o longa é, antes de tudo, uma ode ao protagonismo feminino.

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Nem tudo, no entanto, são só elogios. O insosso Chris Pine, em sua versão gringa de Fábio Assunção, surge como uma escolha questionável para o papel do piloto, soando tão incômodo quanto o slow motion excessivo que precede algumas cenas de ação. O 3D é dispensável e há um estranho pieguismo estético e artificialidade no embate final entre Diana e seu oponente, que embora seja um vilão simples e lógico, dentro do universo da Princesa nos quadrinhos, parece deslocado na performance do ator. As amazonas, em linhas gerais, ganham pouco tempo de tela, assim como Etta Candy, que apareceu demais nos trailers e de menos no longa – uma pena para quem esperava um pouquinho mais da excelente Robin Wright e da divertida Lucy Davis. No posto de antagonistas, a Doutora Veneno e o General Ludendorff também não agradam como deveriam, soando dispensáveis dentro do contexto de apresentação da heroína, que concentrou sobre si todos os holofotes.

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Nenhum dos pontos negativos, contudo, atrapalha o resultado final, pois o maior trunfo do longa é, simplesmente, a sua execução; a porta que ele abre para que novas heroínas sejam vistas e, principalmente, para que as garotinhas do mundo real saiam do cinema treinando golpes imaginários e com vontade de salvar o mundo, tal como a pequena Diana, de Lilly Aspell, fez nos momentos iniciais. Com o lançamento do filme, aliás, a Mulher Maravilha enfrenta, duas vezes, um mundo conservador. A primeira lá, no começo do Século XX, em tempos de Primeira Guerra Mundial, quando a presença de uma mulher em um “ambiente masculino” é ultrajante; quando sua prática escolha de roupa parece ilógica e pouco feminina; suas reações libertárias e cheias de opinião soam ofensivas; a ansiedade pela batalha é confundida com loucura e a coragem causa espanto. A segunda aqui, em sua estreia nos cinemas, 100 anos depois, quando a situação das mulheres não é tão melhor quanto deveria, trazendo preconceitos e desigualdades bastante semelhantes.

Não se trata de “só mais um filme de super-heroi”, assim como não é um filme de origem comum, um aquecimento para ‘Liga da Justiça’ ou um número, apenas, na disputa eterna entre duas editoras de quadrinhos. Inspirador, sutil, divertido e corajoso, ‘Mulher Maravilha’ é um avanço histórico – o primeiro de muitos, assim esperamos.

 

 

 

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Dandara Santos

Jovem-idosa, nerd aspirante a milionária e jornalista. Danda lê livros como terapia, assiste mais séries do que consegue, tem preferências musicais incompatíveis e vê no cinema uma segunda casa. Natural de Brasília, tem 24 anos num corpo de 16 - fato que tenta remediar, inutilmente, na base do fast food. Pseudo-hipocondríaca, viciada em listas e perfeccionista, sofre com a necessidade patológica de expressar sua opinião.

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