Crítica | Em Ritmo de Fuga

Crítica | Em Ritmo de Fuga

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Ficha técnica

Crítica | Em Ritmo de Fuga

Título original: Baby Driver
Data de lançamento: 27 de julho de 2017
Direção: Edgar Wright
Gênero: Ação
Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Nira Park
Roteiro: Edgar Wright
Distribuição: Sony Pictures
Elenco: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Jon Bernthal, Eiza González, Jon Hamm, Jamie Foxx

Avaliação Uber7

Difícil pensar que uma sequência de abertura de cinco minutos de duração, perfeitamente sincronizada com a musica “Bellbottoms” de Jon Spencer Blues Explosion, na qual não acontece nenhum diálogo verbal, teria sido idealizada há 20 anos enquanto o diretor e roteirista Edgar Wright ouvia a canção e pensava “essa música seria ótima para um perseguição de carros”. E não é que ele estava certo? Wright entregou mais do que apenas um filme de sucesso com uma trilha sonora matadora: ‘Em Ritmo de Fuga‘ é uma ópera de ação colorida, onde a música não apenas acompanha a ação, ela é seu combustível, quase que literalmente.

A coisa mais extraordinária sobre o ‘Baby Driver’, título original do filme, é evidenciada nos primeiros minutos da mencionada sequência de abertura. À medida que “Bellbottom” entra e Baby – interpretado por Ansel Elgort – se lança em um conjunto de perseguição de carro cheio de aceleração e coreografia, torna-se evidente que este não é um filme apenas definido para música, mas um filme meticulosamente, e ambiciosamente, montado sobre nota por nota das trilhas cuidadosamente escolhidas. É quase uma ópera de perseguição coreografada por Wright com uma precisão de ‘La La Land’. Com Baby superando os carros da polícia em cada curva, a corrida é fantástica, e a edição de Jonathan Amos e Paul Machliss sem igual. O fato de ser tudo feito de maneira real, sem nenhum uso de computação gráfica, deixa você ainda mais sem fôlego. A atenção do diretor britânico aos detalhes compensa generosamente, à medida que ‘Baby Driver’ avança, ao som de Queen, Young MC, Martha Reeves and the Vandellasand e Simon & Garfunkel reverberando nos ouvidos de Baby e na trilha sonora, o cineasta deixa seu selo indelével em cada quadro.

+Leia também: ‘Em Ritmo de Fuga’ e as melhores cenas de perseguição do cinema

Ansel Elgort dá vida ao personagem principal, um rapaz de poucas palavras que vive o mundo através de sua música, sempre com fones de ouvido e iPods nos bolsos, um pra cada humor. Devido um acidente quando criança, Baby sofre de Tinnitus, um zumbido continuo nos ouvidos que só pode ser abafado com música, daí sua necessidade de estar sempre escutando algo, especialmente quando ele se encontra atrás de um volante. E é aí que o show começa de verdade. Elgort entrega uma performance sólida e carismática necessária para fazer com que o público de fato se importe com seu personagem, convencendo que, apesar de ser um demônio do asfalto que dirige para bandidos, ele é um cara de coração bom que fez más escolhas na vida. Isso é evidenciado sempre que Pops, seu pai adotivo, está em cena, ou mesmo quando pessoas inocentes estão prestes a se ferir.

em ritmo de fuga

‘Em Ritmo de Fuga’ desacelera um pouco quando o mocinho se apaixona pela mocinha, uma garçonete chamada Deborah, vivida pela talentosa Lily James. Ela é a saída perfeita para os desejos não ditos de Baby. O relacionamento dos dois é quase instantâneo, com flertes disfarçados de olhares e diálogos espertos. Porém, por mais dinâmico que seja a relação dos dois, fica impossível não pensar que romance é meio que forçado demais. Além da personagem de James ser extremamente superficial, Deborah não reflete nem um segundo sequer sobre fato de estar entrelaçando seu destino com o de um cara que, até alguns dias, era um completo estranho. E mesmo quando ela descobre a verdade sobre ele continua a confiar cegamente no rapaz.

Dito isto, o elenco de personagens de apoio é uma das maiores forças do filme. Doc, personagem de Kevin Spacey, é ameaçador, mas estranhamente paternal e dotado de algumas das melhores falas do longa. Os parceiros no crime e amantes Buddy e Darling são interpretados por Jon Hamm e Eiza González: ela usa unhas longas e coloridas e brincos de aro de ouro; soprando bolas de chiclete rosadas, enquanto faz com que Buddy mate por ela. Já o personagem de Hamm é um ex-engravatado de Wall Street que fugiu com sua stripper favorita. Eles ajudam a carregar levemente a história junto com uma exposição aqui e um momento de leveza ali, com Hamm se transformando em alguém completamente diferente no terceiro ato da história. Já Jamie Foxx interpreta um bandido de carreira niilista, Bats.

Ansel Elgort;Jon Hamm;Jamie Foxx;Eiza Gonzalez

Impossível não comparar ‘Em Ritmo de Fuga’ com ‘Drive’, de 2011, estrelado por Ryan Gosling e Carey Mulligan. Wright com certeza bebeu da mesma fonte quando pensou em seu filme, porém, passadas as similaridades dos personagens principais – como modus operandi, visual e personalidade – o filme se distancia da obra neo-noir de Nicolas Winding Refn e se aproxima mais de outros clássicos dos anos 1990, como ‘Caçadores de Emoção’, ‘Cães de Aluguel’ e ‘Fogo Contra Fogo’. Uma trindade de respeito.

Quando foi a última vez que você viu um filme que poderia fazer seu coração pular com uma perseguição de carros, em vez de naves espaciais, super-heróis ou o retorno de personagens de uma franquia da sua infância? Wright soube como desconstruir os clássicos, mas também entendeu o que os torna clássicos em primeiro lugar – um pouco de humor, um pouco de coração e algumas cenas de ação iradas. E ‘Em Ritmo de Fuga’ entrega todos os três aos montes, do momento em que a explosão do som de Jon Spencer bate através dos alto-falantes de Baby até os créditos subirem.

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Everson Araujo

Jornalista, aspirante a escritor, professor de inglês, executivo e grisalho. Geek de nascença, é viciado nas melhores séries de TV, quadrinhos e animes, tanto da atualidade quanto os clássicos. Amante de cinema e crítico, Everson vê no universo dos livros a incrível sensação de escape do mundo real.

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