Crítica | Blade Runner 2049

Crítica | Blade Runner 2049

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Ficha técnica

Crítica | Blade Runner 2049

Título original: Blade Runner 2049
Data de lançamento: 05 de outubro de 2017
Direção: Denis Villeneuve
Gênero: Ficção Ciêntifica/Thriller
Produção: Andrew A. Kosove, Broderick Johnson, Bud Yorkin e Ridley Scott
Roteiro: Michael Green e Hampton Fancher
Distribuição: Warner Bros e Columbia Pictures
Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Ana de Armas, Jared Leto, Sylvia Hoeks, Robis Wright, Mackenzie Davis, Dave Bautista

Avaliação Uber7

Em 1982, Ridley Scott nos apresentou ao ‘Blade Runner‘, cultuado filme baseado em Philip K. Dick, que serve como referência para inúmeras obras da cultura pop. Uma autêntica ficção cientifica que não se contenta em apenas mostrar um visual futurista enlatado e uma aventurazinha que os estúdios tanto gostam, mas, sim, trazer reflexão e filosofia que as grandes obras sci-fi se propõem a fazer. ‘Blade Runner 2049‘ é a continuação do clássico de 82, que agora conta com a visão e direção do ótimo Denis Villeneuve.

Trinta anos após os eventos do primeiro filme, um novo Blade Runner, o policial K (Ryan Gosling), do departamento de Los Angeles, desenterra um segredo que tem o potencial de mergulhar o que sobrou da sociedade em caos. A descoberta de K o leva a uma jornada em busca de Rick Deckard (Harrison Ford), um antigo Blade Runner da L.A.P.D que esta desaparecido a três décadas.

A primeira coisa que percebemos é que realmente o filme se passa no universo do original. A atmosfera é a mesma. O clima noir, o figurino e tecnologia cyberpunk pela visão dos anos 80, a fumaça constante, a chuva e tudo que ajudou a construir a opressora e pessimista Los Angeles do primeiro filme se encontram aqui, só que em maior escala. Los Angeles está ainda mais abarrotada de poluição visual e desolada. Além disso, vemos novas ambientações e outras cidades, elucidando ainda mais a interpretação desse mundo. Dito isso, pode-se afirmar que a continuação é muito mais melancólica que o original de 82.

blade runner-2049

Tecnicamente o película é um primor. Não tem como criticar a linda fotografia de Roger Deakins, que além de comprovar que é um dos melhores profissionais dessa área no cinema, consegue passar toda a desesperança e toxicidade desse futuro. Tanto em seus contemplativos e belos planos abertos quanto em planos mais fechados, sentimos a claustrofobia e o pessimismo necessário para se entender o quão lastimável e doente está a sociedade.

Sempre trabalhando na trilha sonora dos filmes de Denis Villeneuve, Jóhann Jóhannsson, dessa vez, deixou  o projeto sem uma explicação satisfatória, mas essa adversidade parece que não foi problema. Benjamin Wallfisch e o Deus Hans Zimmer foram acionados e fizeram bonito. Quem conhece ‘Blade Runner‘ sabe que a trilha original de Vangelis é um personagem vivo dentro do filme, e Wallfisch junto com Zimmer, como homenagem, a evidenciaram ainda mais e adicionaram um tom mais pesado e moderno. Escutar a trilha sonora de ‘Blade Runner 2049‘ no cinema com um bom som é um espetáculo à parte. Antes mesmo do filme verdadeiramente começar, quando aparece a logo da Sony, já é de se tremer todo só com a primeira nota que se escuta.

Como já foi dito, tecnicamente tudo é um deslumbre.

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Ryan Goslin (Agente K), reeditando sua interpretação em ‘Drive’ mas com ainda menos sorrisos, combinou perfeitamente com o estado de espirito confuso e solitário do seu personagem; Harrison Ford (Deckard) está muito bem – faz tempo que não se vê ele tão versátil; Anna de Armas (Joi) passa o tom certo de sensualidade, doçura e inocência que sua personagem pede; Robin Wright (Lieutenant Joshi), nossa Claire Underwood, com o peso e imponência de sempre, deixa claro que é uma das mulheres mais badass do cinema; Sylvia Hoeks (Luv) está muito inspirada em seu conterrâneo Rutger Hauer, o que é ótimo; e Jared Leto (Niander Wallace) é canastra como sempre, mas nada que atrapalhe e até fica melhor do que o esperado.

 

Sci-fi raiz

Ficção cientifica serve para analisarmos o mundo e a sociedade através de uma “fantasia possível”, e isso continua sendo entregue. Críticas ao capitalismo e às grandes corporações sempre estiveram presente no plano de fundo da mitologia criada em ‘Blade Runner‘, mas o core mesmo é a filosofia sobre o que é a vida e a existência. A frase “Olhos, a janela da alma” pode parecer brega, mas não é à toa que, na busca pela compreensão do que é ‘Alma’, os ‘olhos’ têm efeito semântico importantíssimo nesse longa. Nessa toada, os replicantes são a alegoria usada para refletirmos em cima do conceito de vida, morte, existência e criação. Toda a narrativa é feita com símbolos e frases que nos fazem pensar e que não deixam o filme ficar em um lugar comum. Como é bom sair da sala do cinema e continuar pensando no que acabamos de assistir!

blade runner 2049

Mas, como nem tudo são rosas, os fans services variam do ‘8 ao 80’. Alguns dão aquele cafuné carinhoso que faz o fã se sentir especial pelo filme que ele tanto gosta, e também tem alguns que são tão deslocados e forçados que ficam feios em tela, soando mais falso que um unicórnio. [Rá, referência marota]

A obra se perde no mal que vários filmes de hoje em dia sofrem: o de deixar tudo bem explicadinho, como se o espectador não tivesse capacidade de compreender nada [Nolan feelings]. O corte final do ‘Blade Runner original é um filme completo e redondinho em sua proposta. Todas suas respostas são satisfatórias e as dúvidas deixadas não são pontas abertas e, sim, um instigante convite ao debate e reflexão. Sempre são deixadas pistas para irmos construindo a história juntos com o protagonista. Já Villeneuve escolheu por flashbacks bastante explicativos, ao ponto de ficar repetindo em voz over uma frase que todo mundo já entendeu ser importante. Isso pode ter partido de uma escolha mercadologia para deixar o filme mais acessível a uma geração preguiçosa, mas existem outros recursos de roteiro que poderiam ser usados, que deixariam o filme menos didático e com o mesmo efeito.

Mesmo com esse defeitinho que atrapalha um pouco a experiência, ‘Blade Runner 2049‘ é uma continuação à altura do clássico da ficção cientifica que é o primeiro. O filme é lindo, faz refletir e tem um baita sub-texto. Vale o preço do ingresso e merece um cinema. Denis Villeneuve ainda não errou em nenhum longa, já estou ansioso pelo próximo.

Obs: Após sair do cinema, assista esses três curtas sobre os acontecimentos do filme:

 

 

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Klauber Vieira

Nasceu em Porto Alegre, mas foi em Brasília que criou raízes - na capital ele cursou cinema, publicidade e atualmente é professor de História. Klauber é daqueles que não baixa filmes porque ama e defende toda a experiência que envolve o cinema: comentar cartazes e trailers enquanto pega fila, reclamar da pipoca e sentar com dificuldade nas cadeiras. Educado pelos pais e criado por filmes, gosta de tudo: de Rei Leão a Pink Flamingo; de Pontes de Madison a Jurassic Park. Torcedor do Inter e um eficiente gamer, às vezes é um "velho jovem" e às vezes um "jovem velho"

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