Crítica | Assassinato no Expresso do Oriente

Crítica | Assassinato no Expresso do Oriente

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Ficha técnica

Crítica | Assassinato no Expresso do Oriente

Título original: Murder on The Orient Express
Data de lançamento: 30 de novembro de 2017
Direção: Kenneth Branagh
Gênero: Suspense
Produção: Kenneth Branagh, James Prichard
Distribuição: Fox Film do Brasil
Roteiro: Michael Green
Elenco: Kenneth Branagh, Johnny Depp, Daisy Ridley, Michele Pfeiffer, Judi Dench

Avaliação Uber7

‘Assassinato no Expresso Oriente’ é tudo aquilo que a adaptação de ‘Sherlock Holmes’, de Guy Ritchie, lançada em 2009, deveria ter sido. Em vez de transformar um personagem clássico da literatura em um super-herói, o diretor Kenneth Branagh (de ‘Thor’), também intérprete do protagonista Hercule Poirot, se manteve fiel à obra da britânica Agatha Christie, publicada em 1934, e colocou nas telonas a adaptação mais parecida com o romance até hoje. Não significa que seja a melhor, mas as palavras do livro ganharam vida com riqueza de detalhes aqui.

No enredo, o renomado investigador belga Poirot tenta desfrutar de um pouco de descanso a bordo do Expresso Oriente antes de ir para o próximo caso, em Londres, capital da Inglaterra. Ele é surpreendido, porém, pela descoberta do assassinato do Sr. Ratchett (Johnny Depp, da franquia ‘Piratas do Caribe’), na cabine ao lado de onde ele dormiu. Para atender a um clamor do dono do trem, seu amigo pessoal Bouc (Tom Bateman, de ‘Olha que Duas’), ele toma as rédeas do caso e, a partir daí, todos os excêntricos ocupantes do surpreendentemente lotado vagão passam a ser tratados como suspeitos.

A trama gera expectativa e ansiedade para saber quem, afinal, é o culpado, mesmo para os já familiarizados com história. Afinal, existe sempre a chance de o cinema inovar em relação à literatura, como tantas adaptações recentes tem feito. Mérito para o roteiro complexo e bem amarrado de Michael Green (de ‘Logan’), que não inova na linha do tempo apresentada, mas cria um bom ritmo. O único porém é sua tentativa de copiar o estilo literário de Agatha Christie, com caracterizações rasas e foco apenas nas possíveis motivações dos suspeitos. Isso proporciona alguns diálogos expositivos constrangedores e forçados, especialmente no início.

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Como alguém com conhecimento prévio do livro, para mim algumas conclusões apresentadas pelo detetive pareceram óbvias demais para serem tratadas com tanta pompa. Portanto, um leigo a respeito do enredo seria mais indicado para dizer se o mistério foi bem apresentado, nesse sentido, ou não. De qualquer maneira, a cinematografia de Haris Zambarloukos e a direção competente de Branagh aproveitam bem o desenrolar da história.

Com o peso de a última grande releitura de ‘O Assassinato no Expresso do Oriente’ ter sido a versão de 1974, estrelada por Ingrid Bergman e Sean Connery e com sete indicações ao Oscar, a produção escalou um time de astros para o papel dos suspeitos. Entre atrizes em ascensão, como Daisy Ridley (da nova trilogia de ‘Star Wars’) fazendo a Miss Debenham, e figuras consagradas, a exemplo de Judi Dench (de ‘007: Skyfall’) na pele da Princesa Dragomiroff, houve espaço para o desconhecido Sergei Polunin divertir como o Conde Andrenyi e Penélope Cruz voltar aos holofotes como a beata Pilar Estravados.

Os personagens de Willem Dafoe (de ‘Homem-Aranha’), o professor Hardman, e de Manuel Garcia-Rulfo (de ‘Sete Homens e Um Destino’), o sr. Marquez, passam quase despercebidos durante a projeção, apesar da importância que têm. Isso gera um contraste com as boas atuações de Josh Gad (de ‘A Bela e a Fera’), como MacQueen, Derek Jacobi (de ‘O Discurso do Rei’) como o mordomo Masterman, e, principalmente, Michelle Pfeiffer (de ‘Hairspray’) com sua Caroline Hubbard, mas nada que comprometa o resultado final. O dr. Aberthnat de Leslie Odom Jr. (da série ‘Person of Interest’), a condessa Elena Andrenyi de Lucy Boynton (de ‘Sing Street’) e o condutor Michel de Marwan Kenzari (de ‘A Múmia’), por sua vez, não fedem nem cheiram.

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Em um contexto diferente, é interessante notar como o personagem de Johnny Depp, o sr. Ratchett, parece ter uma personalidade que, guardadas as devidas proporções, se assemelha com a vida pessoal do ator. Depp é acusado por sua ex-namorada, Amber Heard, de violência doméstica e, desde o ano passado, os tabloides norte-americanos revelam supostas brigas do casal e até sobre como o astro teria ido à falência por seu estilo de vida extravagante.

A decadência de Ratchett e até mesmo as revelações sobre ele ao longo do filme parecem quase uma penitência ao ator. Considerando que, mesmo após ele ter agredido a namorada, continua conseguindo papéis de destaque em franquias renomadas (como no spin-off de Harry Potter, ‘Animais Fantásticos‘), soa como alento cada infortúnio vivido por Depp na pele de Ratchett. Infelizmente, é o mais próximo de represália que ele deve sofrer por seus crimes.

Por fim, ‘Assassinato no Expresso do Oriente‘ não será a última aparição do bigodudo Poirot nessa nova versão para os cinemas. Branagh e seu time estão confirmados na sequência prevista para os próximos anos, que deve aproveitar o material de ‘Morte no Nilo‘, publicado em 1937. Vida longa a Agatha Christie.

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Eric Zambon

Pai da Olívia e dono de um espírito de tiozão. Aspiro, algum dia, ser o parente da piada do Pavê. Até lá, leio qualquer conto do Hemingway e de Bukowski em que consigo colocar as mãos. Sabe como é, leia os grandes para se tornar um deles. Outro dia escutei a discografia inteira do Arctic Monkeys e descobri que é horrível, então continuo à espera da reunião do Oasis.

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