‘Corra!’ e o ótimo retrato do liberalismo racista

‘Corra!’ e o ótimo retrato do liberalismo racista

Autor: 141

Corra!‘ é naturalmente um filme incomum por tratar de assuntos recorrentes de uma forma não usual. A criação de uma atmosfera de suspense mesmo sem apelar para grandes sustos – daqueles que tiram o espectador da poltrona direto para o teto – também é muito eficaz e, como a cereja do bolo, o diretor e roteirista Jordan Peele exprime um tipo de racismo muito comum e que, muitas vezes, conta com o comportamento condescendente de todos para sua perpetuação.

Antes de começar, é importante lembrar que este texto contém spoilers do flime ‘Corra!‘ (‘Get Out‘). Se você não quiser ter a experiência alterada por causa disso, assista primeiro e corra de volta (com o perdão do trocadilho) para nos contar o que você achou.

Racismo sempre foi um tema delicado para se abordar no cinema, mas o modo escolhido por Peele para tocar no assunto foi um tanto… desafiador. O “tipo” de preconceito que move a trama é aquele emanado por um grupo chamado liberais brancos. Mas o que isso significa afinal?

Get-Out 2

Família branca, empregados negros. Cenário clichê, mas será que é raro?

O primeiro ato do filme é todo sobre como pessoas brancas interagem de forma constrangedora com negros (no caso, o protagonista Chris) tentando provar que não são racistas. O problema é que esta forçada de barra para ser desconstruidão acaba expondo ainda mais o preconceito enraizado nessa ~cultura~ liberal, na qual ser negro é “legal” e não apenas “normal”.

Enquanto se consideram liberais, os personagens que interagem com Chris criam um ambiente artificial no qual lembram constantemente o rapaz de que ele é negro, mas com o objetivo de reforçar suas próprias atitudes “não-racistas”. A necessidade de manter a negação em evidência é um reflexo do que acontece historicamente com a população negra: a voz mais alta é a do branco tentando se justificar, enquanto o negro permanece silenciado.

get out 4 (L to R) Logan (LAKEITH STANFIELD) meets Chris (DANIEL KALUUYA) in Universal Pictures’ “Get Out,” a speculative thriller from Blumhouse (producers of “The Visit,” “Insidious” series and “The Gift”) and the mind of Jordan Peele. When a young African-American man visits his white girlfriend’s family estate, he becomes ensnared in a more sinister real reason for the invitation.

Quando Chris fica aliviado quando vê outro negro convidado para o evento, é porque o ambiente não estava nem um pouco agradável para ele.

Se ainda não ficou muito claro do que estamos falando, eis um exemplo mostrado no próprio filme: trazer à mesa assuntos que envolvem negros para interagir com Chris é algo racista, pois ignora o fato de que ele possa desenvolver uma conversa sobre assuntos genéricos e espontâneos. Além disso, mencionar personalidades afro para se mostrar integrados à realidade do outro é igualmente preconceituoso, pois nem todos os negros se conhecem ou sequer gostam uns dos outros – como qualquer pessoa na face da Terra. Isso, na verdade, apenas acentua as diferenças entre o interlocutor e seu alvo, que sempre fica desconfortável.

Além disso, a casa dos Armitage é uma representação reduzida de todo um sistema: ali, qualquer manifestação racista é perdoada porque emana uma “boa vontade” entre os presentes, que fazem o que fazem “sem querer”. Enquanto isso, a estrutura de privilégios dos mais abastados se mantém. Nada é por acaso em ‘Corra!‘.

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O reforço do estereótipo do negro atlético e culturalmente diferente também demonstra uma espécie de fascínio com a negritude – e isso tem até nome: negrofilia. O termo tem origem na década de 1920, em Paris, quando os hipsters da época faziam questão de mostrar como eram legais por entenderem da cultura negra. E essa realmente era uma moda na França, um sinal de modernidade ostentado pela juventude como um troféu.

O problema disso é que a população negra cai ora no estereótipo do “santo”, ora no “demônio”, nunca no “normal”. Nos dois modelos, é a óptica branca que define o papel do negro.

A negrofilia não trata de entender a cultura afro e valorizá-la, mas, sim, usá-la em benefício próprio. *Qualquer semelhança com o conceito de apropriação cultural também não é mera coincidência.

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A atitude liberal racista dos convidados do evento evidenciam como Chris se transformou um troféu para os Armitage, e não uma parte integrante das celebrações.

Já na reta final, a conclusão de ‘Corra!‘ mostra o processo de colonização de forma literal, após o leilão de Chris como escravo e a tomada à força do seu próprio corpo. A ilustração exagerada reflete exatamente o que é o liberalismo racista, quando o cego milionário se recusa a atribuir sua conduta ao racismo. “Por favor, não me coloque ali… estou cagando para a sua cor. O que eu quero é mais profundo… quero ver pelos seus olhos“. UHUM, acreditamos!

Esta parte final do filme mostra como Chris se sente deslocado e obrigado a se enturmar em um ambiente que não é amigável ou receptivo. Ele percebe que é o único “diferente” e acaba tendo que criar uma espécie de segunda personalidade: a primeira seria ele mesmo, com uma identidade própria, e a segunda seria o namorado de Rose, compelido a se integrar àqueles grupos repletos de brancos e velhos estranhos.

Esta multiplicação de facetas é observada desde o início, quando ele se sente com medo de conhecer os pais da namorada pelo fato de eles serem brancos. E a palavra é essa: medo. Chris não se sente confiante em ser quem ele realmente é por receio, ao ponto de ter que ligar para o melhor amigo para se aconselhar e perguntar para Rose se ela tinha avisado que ele era negro. Quão fictícia é essa reação? Será que jovens em todo o mundo não sentem o mesmo?

A partir dessa ótica, ele passa a se guiar não por seus valores, mas por influencia de todos a seu redor, como se não estivesse no controle das próprias atitudes. E é aí que entra o Lugar Profundo.

Muito mais que uma técnica de hipnose, esta é uma alegoria para a realidade na qual uma pessoa negra parece não ter controle da própria vida, assistindo-a por uma tela (literalmente mostrada no filme). Este cenário mostra não apenas uma situação hipotética individual e momentânea, mas um cenário macro real. A metáfora pode ser aplicada à falta de representantes negros na política, ou até mesmo à quantidade reduzida de diretores negros em Hollywood. São muitos os exemplos.

O próprio Jordan Peele, em sua conta no Twitter, esclareceu o que é o Lugar Submerso. “Ele simboliza nossa marginalização. Não importa quão alto gritemos, o sistema nos silencia“.

E isso é uma realidade em qualquer sociedade que tenha sido construída com base na desigualdade. Inevitavelmente haverá alguém marginalizado, com pouca voz perante as decisões que lhes dizem respeito. No mundo ocidental, historicamente, quem ocupa esse espaço é a população negra. O racismo, assim, é deixado de lado muitas vezes para permitir que o fluxo “natural” das coisas continue – mas ele ainda está lá.

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Bem no final, Chris ainda usa um elemento que caracterizou a exploração dos negros por séculos como ferramenta para se salvar: o algodão. Além disso, reage violentamente para não retornar para a posição de oprimido à qual foi conduzido. Ele atua de forma extremamente agressiva para reforçar a sua identidade, afastando de uma vez por todas possibilidade de qualquer outro homem se apossar do seu corpo.

Jordan Peele

Jordan Peele, o responsável por este retrato diferenciado do racismo. (Foto: Rich Fury/Invision/AP)

E Rod, que sempre aparece como um alívio cômico, é a voz da razão que (esse sim) lembra Chris de quem ele realmente é. Novamente, a metáfora do silenciamento se faz presente, pois Rod é ridicularizado quando tenta reportar o desaparecimento de Chris e Andrew. Assim, tem que agir por conta própria para salvar o amigo.

Na cena final, Peele consegue criar uma atmosfera muito peculiar para que o próprio espectador crie uma suposição do que está por vir. Quando o carro da polícia chega e um homem negro está sobre o corpo de uma jovem branca, por mais destruído que ele estivesse, todos pensam a mesma coisa: já era. Pois é, não é difícil deduzir que o negro se daria muito mal naquela situação.

Mas é Rod quem aparece e “salva o dia”, algo como um respiro, uma luz no fim do túnel que torna válida toda a luta pela identidade. O horror da realidade é estilizado como ficção em ‘Corra!‘, mas ainda está presente. O racismo não tem dono, time, partido ou qualquer filiação. Ele apenas existe, mesmo onde não aparenta estar.

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Filipe Rodrigues

Jornalista, apaixonado por futebol, nerd e leonino. Apesar de acompanhar tudo o que acontece no mundo dos esportes, escolheu o universo das nerdices pra dedicar seu tempo produtivo e criativo. Gosta muito de Superman; entre Vingadores e X-Men fica com os mutantes; adora coisas nostálgicas como Digimon, Power Rangers e Dragon Ball; e seu filme favorito agora é Mad Max: Estrada da Fúria!

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